Uma época de vazios
Em um dos filmes de Woody Allen, Zelig, Leonard é uma pessoa sem identidade que se encaixa em qualquer lugar porque, na verdade, muda de…

Em um dos filmes mais fascinantes de Woody Allen, Zelig, Leonard é um homem sem identidade. Ele se molda a qualquer ambiente, pois muda de personalidade de acordo com a situação. Desfila em paradas sob serpentinas lançadas dos prédios, aparece em pé entre os presidentes Herbert Hoover e Calvin Coolidge, faz palhaçadas com o boxeador Jack Dempsey e conversa sobre teatro com o dramaturgo Eugene O’Neill. Até mesmo em um comício de Hitler, em Nuremberg, Leonard está presente — bem ali, na plataforma, ao lado do orador.
Sobre o personagem, uma das descrições mais precisas é feita por Walther J. Burghardt. Ele afirma que Leonard não possui personalidade própria; em vez disso, absorve as personalidades dominantes daqueles com quem se relaciona, sejam quem forem. Com chineses, ele é chinês desde a infância. Entre rabinos, sua barba e cachos laterais surgem quase miraculosamente. Na companhia de psiquiatras, imita seus jargões e assume o gesto solene de apoiar o queixo, como se refletisse profundamente. No Vaticano, integra o séquito clerical do papa. Durante os treinos de primavera, veste o uniforme dos Yankees e posiciona-se no bastão, logo após Babe Ruth. Leonard se torna um trompetista negro, um gorducho, um índio Mohawk. Ele é, essencialmente, um camaleão — ajusta sua cor, sotaque e forma às mudanças do mundo ao seu redor. Não possui ideias ou opiniões próprias; deseja apenas estar seguro, se encaixar, ser aceito e, por fim, ser apreciado.
Vivemos tempos em que a falta de significado intelectual permeia todos os aspectos da vida cotidiana. Talvez porque, como pensava Tolstoi, muitos ainda acreditam que somos apenas "um pequeno aglomerado de algo aglutinado acidentalmente". O escritor russo começou a despertar quando percebeu que “eu e algumas centenas de outras pessoas semelhantes não somos o conjunto da humanidade, e que eu ainda não conhecia a vida da humanidade”. Como poderia essa vida ser compreendida, se hoje nos dividimos entre essência e slogans? Quando crianças, em vez de serem apresentadas a exercícios intelectuais que poderiam revelar algo sobre quem são, são conduzidas a práticas que prometem apenas fazê-las sentir-se seguras, encaixadas e aceitas — ainda que de forma ilusória.
E é uma ilusão, pois essa segurança é volátil, desprovida de qualquer solidez. A aceitação é circunstancial, e a apreciação, tão superficial quanto a de alguém que admira um produto em uma vitrine. Quem não conhece a si mesmo busca sua identidade entre neblinas e sombras, tornando-se vazio em meio a uma multidão de experiências que não o valorizam, mas apenas expõem o quão efêmera é sua existência.
Vivemos uma época de vazios — não porque o vazio nos cerca, mas porque nós o personificamos. Lipovetsky nos alerta para isso: após o feminismo, o consumismo que nos domina não busca a posse, mas o sentimento pessoal. Não é mais surpreendente que as pessoas ostentem marcas comerciais ou se apresentem como vitrines vivas para o consumo, buscando na exibição de bens uma identidade que não possuem.
Se alguém se define através de algo externo, ou se entrega a experiências que o esvaziam, o que mais estaria disposto a fazer? Será espantoso que a depressão e outros transtornos mentais e emocionais se tornem epidêmicos? Nessa questão, talvez o Gato de Cheshire, em Alice no País das Maravilhas, nos ofereça um insight. Quando Alice, perdida, pergunta para onde deve ir, ele responde: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.” Serve mesmo? Ou seria mais apropriado dizer: para quem não sabe para onde vai — ou sequer quem é —, o vazio estará presente em qualquer caminho escolhido.
