Tempo e narrativa
Eis o meu ponto: não somos uma geração que tem pouco tempo, somos uma geração que deixa o tempo diário escorrer como areia de suas mãos.
Uma das obras que mais me marcou foi a coleção Tempo e Narrativa, do filósofo francês Paul Ricœur. Em especial, no primeiro volume, Ricœur afirma que é a narrativa que torna acessível a experiência humana do tempo — o tempo só se torna humano por meio da narrativa.
Na filosofia judaica, o tempo e a construção da narrativa estão intimamente ligados, o que explica o zelo com o tempo. Falando de outra forma, é no tempo que escrevemos a nossa história. São as vivências diárias que definem carreiras, produções, conquistas e desventuras. Mesmo no amor, o “para sempre” é construído um dia de cada vez.
Uma das piores sensações que podemos experimentar é a de ter desperdiçado algo, especialmente o tempo. Ver alguém lamentar pelo tempo perdido, pelas oportunidades negligenciadas, talvez seja uma das cenas mais tristes — e pedagógicas.
Somos uma geração que reclama constantemente de não ter tempo para nada. Pergunto-me se essa afirmativa é verdadeira. Eis o ponto: não somos uma geração sem tempo; somos uma geração que deixa o tempo diário escorrer como areia pelas mãos.
Como prova, permita-me criar uma situação aparentemente irracional. O que você acharia de ter um mês por ano exclusivamente para fazer o que quiser? Não falo das férias tradicionais, mas de um banco de horas acumulado, que lhe proporcionasse 30 dias dedicados a ler, cuidar de quem ama ou se dedicar a algo que lhe traz prazer.
Impossível? Na verdade, desperdiçamos muito mais do que isso ao longo do ano. Calcule comigo: suponha que você gaste, em média, duas horas por dia em redes sociais e aplicativos de mensagens. Ao final de um ano, terá dedicado 30 dias inteiros a essa atividade.
Exagero? Não. Em 2020, cada brasileiro com smartphone passou, em média, 4,8 horas por dia utilizando o aparelho, de acordo com o relatório anual da App Annie. Isso equivale a 73 dias ao ano exclusivamente dedicados aos smartphones.
Falta de tempo? Parece-me que o problema não é a falta de tempo, mas a má escolha de onde investimos nossas horas. A questão que permanece é: como você tem administrado o seu tempo?

