Solitude e distrações
É uma geração que ama somente a si, que tem a si mesmo como o centro (mesmo ande longe do conhecimento de si), e que padece por esse…
Uma cena incomum em nossos dias é encontrar alguém envolto em seus próprios pensamentos durante um momento de espera. O mais comum é ver pessoas imersas em seus celulares, enganando a si mesmas ao imaginar que estão informadas, enquanto checam grupos de mensagens ou se deslumbram com as vivências alheias nas redes sociais.
Praticamente, as pessoas estabeleceram rituais com seus celulares. Quase que de forma involuntária, conferem notificações várias vezes ao dia. Em uma pesquisa de 2019, conduzida pela consultoria inglesa Tecmark, constatou-se que, em média, uma pessoa verifica seu celular mais de 220 vezes por dia.
Uma característica marcante do nosso tempo é estarmos presos aos fluxos que criamos. Esses fluxos nos trazem conforto, talvez porque nos afastem do exercício de refletir sobre o que é essencial — como bem observou C. S. Lewis.
As pessoas parecem ter verdadeiro pavor de estarem sozinhas. O frenesi por distrações reflete isso. Contrariando essa aparente fobia contemporânea, Louis Lavelle, um dos principais metafísicos franceses do século XX, afirma:
“Quando se está a sós, diz-se que se está a sós consigo mesmo, o que implica que não se está sozinho, mas a dois. O ato pelo qual nos desdobramos para ter consciência de nós mesmos cria em nós um interlocutor invisível ao qual perguntamos nosso próprio segredo.”
Estar a dois — com nosso interlocutor invisível —, compreendendo quem somos e amadurecendo nossas visões, conceitos e posições, é algo que raramente ocorre hoje.
Lavelle esclarece a lógica dessa atitude ao afirmar que “pensar é ter consciência de si, é possuir-se a si mesmo”. Contudo, vivemos em uma geração que pouco conhece a si mesma, mas que exerce o autoengano de crer que compreende tudo — mesmo sendo tão rasa quanto inquieta e excitada.
Como bem destacou meu irmão e professor André Lisboa, trata-se de uma geração que ama somente a si mesma, tem a si como o centro (mesmo estando longe do conhecimento de si) e que padece justamente por esse motivo.
Seria melhor para nossa geração se fôssemos menos reféns do constante fluxo de distrações. Seria mais proveitoso dedicarmos nosso tempo, energia e atenção, primeiramente, ao conhecimento de nós mesmos.

