Solidão
Eu sempre fui alguém que apreciou os momentos a sós. Algumas pessoas temem demais momentos assim, sempre procurando estar na companhia de…
Sempre fui alguém que apreciou os momentos a sós. Algumas pessoas temem esses instantes de isolamento, buscando constantemente estar na companhia de alguém. Para mim, nunca foi um problema. Desde pequeno, observar as horas que meu pai passava em sua biblioteca ou em oração me ensinou a valorizar momentos como esses.
Contudo, tudo parece mudar em uma UTI. Mesmo as mentes mais calmas tornam-se instáveis e inquietas. São como ondas que se chocam violentamente contra as rochas à beira do mar. Foi assim que me senti durante as semanas de isolamento.
Não havia música cuja letra eu conseguisse lembrar, os salmos escapavam da memória, as poesias tinham suas linhas embaralhadas. A mente tenta se fixar em algo, busca ser forte. Mas como ser forte quando ela própria, turvada pelas medicações, começa a delirar?
Cada visita torna-se um tesouro, ainda que breve. Qual é o seu nome? Como você está? Gosta de trabalhar aqui? Lanço mão de qualquer pergunta que faça os funcionários do hospital ficarem por alguns minutos comigo.
Alguns são profundamente amorosos, chegando a te adotar, cuidando de ti de uma forma que aquece o coração. Outros, porém, trazem uma aridez maior do que a já enfrentada na solidão diária. Nessas horas, as dores parecem pulsar mais intensamente, e a pequena esperança semeada desaparece como a neblina ao amanhecer.
Então, no horário marcado, chegam os teus amados. O tempo, que antes parecia imóvel, agora corre desenfreado, desrespeitando a paz que te toma por alguns breves minutos. Logo, tudo volta ao “normal”: desalento, dor e dúvidas que insistem em não te deixar a sós.
A solidão passa a ser facilmente definida como a ausência do outro. Ausência do diálogo, do toque, do som de uma voz que traz canção à tua existência. É a falta da presença de quem te arrebata de qualquer situação.
Isso me fez refletir sobre o quanto desprezamos a companhia do outro, o quanto ela é — tantas vezes — ignorada. Em nossa geração, estar ao lado não significa estar perto. Assim como eu estava, ao lado de outros, separado por uma distância instransponível. Talvez, assim como estamos todos nós — mesmo sem perceber.

