Silêncio
Primeiro, o ritmo da cena. O barulho disrítmico dos marcadores cardíaco, não só mede os batimentos, mas chega a furtar os seus com cada…
Primeiro, o ritmo da cena. O barulho disrítmico dos marcadores cardíacos não apenas mede os batimentos; ele parece furtar os seus a cada variação. Torna-se audível a oscilação de corações cansados, prendendo o seu em um compasso agonizante. O ritmo é ensurdecedor, desorientador. Ele parece sugar todo sentido e razão. Sua resistência murcha a cada hora, drenada por esse som implacável.
Segundo, a melodia entristecedora. Os gemidos espaçados de dor. Alguns são fortes, outros quase inaudíveis. Eles revelam sua fragilidade ao lutar para ecoar pelo ambiente. E, nos seus ouvidos, a melodia ganha proporções desmedidas, tornando a respiração difícil, sufocada, inconstante, como se cada fôlego fosse fruto de um esforço sobre-humano.
Terceiro, o contracanto. Os sussurros dos choros contidos, daqueles que vêm diariamente. Embora discretos, têm a voracidade dos trovões numa tempestade, amplificando o rajar dos ventos e o peso da chuva. Escancaram aquilo que todos tentam esconder: os corações estão ali, apertados, sangrando com o que veem e com a impotência diante do que não podem mudar.
Enfim, a harmonia. É quando seus pensamentos entram em cena. Semanas na UTI fazem você literalmente delirar. A solidão preenche o ambiente — talvez ela seja o maior algoz. A leitura é impossível; o contato com o mundo externo, proibido. Os pensamentos perdem a cadência e a razão. As pequenas necessidades tornam-se grandes desafios. E a dor, antes episódica, passa a ser percebida como uma constante companheira.
Nesse cenário, lembrei do monge trapista da Abadia de Gethsemani, Thomas Merton. Ele escreveu:
“O silêncio dos lábios e da imaginação dissolve o que nos separa da paz das coisas, que só existem em Deus e não para si. Mas o silêncio de todo o desejo desordenado elimina a barreira que nos separa de Deus. As coisas mudas cessam, então, de conversar conosco em seu silêncio. É o próprio Senhor que nos fala, com um silêncio ainda mais profundo, do meio do nosso ser, de onde Ele se esconde.”
Pergunto-me quanto tempo passei nesse ambiente — como o da UTI — sem despertar para a realidade dos ruídos agonizantes que me cercavam. Você não está pensando o mesmo agora?

