Significado e Realização
A filosofia ganha tons práticos, mesmo quando descortinada de sua religiosidade.
Saʿadia Gaon, filósofo judeu, afirmava que a definição de criação como realização acrescenta-lhe significado, tomando como base Gênesis 1. A criação, segundo ele, é feita com o propósito de manifestar a Glória do Pai; tudo o que é criado é bom exatamente por esse motivo. Em Gênesis 1, o que é considerado “bom” (טוב), ou agradável, é assim definido porque corresponde à realização de um propósito.
O que é agradável (טוב) na criação é agradável diante do Eterno, que Cria e Contempla tudo o que é feito. De igual forma, todo viver — que é a realização contínua da criação — torna-se agradável diante dEle quando encontra significado em Seu propósito.
“Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado (ευδοκεω: achar bom, estar satisfeito, ter prazer)!” — essa afirmativa em Mateus 3.17 deixa claro que o prazer do Eterno em Seu Filho repousa no fato de o “alimento” (João 4.34) do Filho ser cumprir a vontade daquele que o enviou e realizar (τελειοω: levar até o fim) a Sua obra (εργον: a criação feita pelas mãos de alguém).
A implicação da filosofia de Saʿadia não está apenas na ideia de que a criação possui significado enquanto realização, mas na realidade de que a obra criadora do Eterno continua a ser “completada” por meio daqueles que vivem para realizar Sua Vontade — os que O agradam.
Essa filosofia adquire um caráter prático, mesmo quando despojada de seu contexto religioso. Vivemos em tempos de quase absoluta dessacralização das coisas. Lembro-me de quando, ainda no seminário teológico, decidi seguir a carreira docente. Os professores ali pareciam revestidos de um ar sacerdotal — creio que isso se devia ao sentido intrínseco do que era ensinado.
Ao ingressar na academia de Direito, percebi que esse arquétipo sacerdotal da docência não se sustentava por muito tempo, principalmente devido à clara relação de prestação de serviço que caracterizava o trabalho de alguns professores. Era apenas um meio para alcançar um fim. E, muitas vezes, um fim que também servia como meio.
No entanto, por qual motivo fazemos o que fazemos? Qual significado atribuímos às nossas ações? Existe algum propósito maior que move nossos dias? Ou será que, para além da satisfação financeira, vivemos em uma época completamente vazia de significado e realização?
Por hoje, encerro com essas perguntas. No próximo texto, retomaremos o pensamento.

