Sexo é o nome errado para o que queremos
por que o corpo não dá conta do que a alma pede?
Este é o primeiro texto de uma série exclusiva que nasce de uma leitura provocadora — provocada, aliás, por alguém que me conhece bem e que sabia que eu não passaria ileso por aquelas páginas. Foi minha querida irmã Danniella quem me indicou Alguma vez é só sexo?, de Darian Leader. O título já era uma pergunta que me chamava de canto. A resposta do autor, ali dentro, foi um empurrão: o que a gente chama de “sexo” quase nunca tem a ver com o que de fato está em jogo. E o que está em jogo, quase nunca tem nome.
Darian Leader nos convida a desconfiar das evidências. A diferença entre o que se quer, o que se faz, o que se diz e o que se sente após tudo isso é maior do que a gente gosta de admitir. Há uma falha estrutural entre o desejo e o ato. Um intervalo que nem a nudez, nem o orgasmo, nem a intimidade conseguem fechar. E talvez nem devêssemos querer que fechasse.
Comecei, então, a reler outras vozes. Lacan, Žižek, Kristeva, Barthes, Beauvoir, Butler, Foucault, Han. E fui entendendo que aquilo que chamamos de sexo talvez seja só a forma mais aceita de disfarçar o que realmente queremos. Ou, como diria Barthes, a palavra que usamos quando já não temos mais palavras.
Esse texto, portanto, não quer explicar o desejo. Quer se perder com ele. Quer andar ao lado da sua falta, cutucar a ferida, nomear o que insiste em escapar — com a humildade de quem sabe que nome nenhum vai bastar. Talvez por isso a gente chame de sexo. Porque qualquer outro nome exigiria mais do que estamos dispostos a mostrar.
O desejo nunca se realiza
Darian Leader diz que o desejo tem uma geografia própria: ele nunca está exatamente onde diz que está. Quando achamos que o encontramos, ele já se deslocou. E se nos apressamos para agarrá-lo, ele nos escapa pelas bordas — ou se disfarça de outra coisa qualquer. Assim, o sexo, tantas vezes, não é o fim do desejo, mas seu disfarce mais aceitável. E seu álibi mais rápido.
Freud já dizia que o desejo é interminável. Lacan vai além: o desejo é o desejo de continuar desejando. Ele não quer se satisfazer. Ele quer se manter vivo — e, para isso, precisa de distância. Toda vez que chegamos perto demais, o desejo se desfaz ou se transforma em outra coisa. É por isso que ele pulsa não no encontro, mas na falta. E é justamente essa falta que o sexo muitas vezes tenta disfarçar. Tentamos preencher o vazio com um corpo. Mas o vazio não se sacia assim.
Žižek, lendo Lacan com lentes pop e sangrentas, diz que essa estrutura do desejo pode ser entendida num pesadelo recorrente: o sujeito corre atrás de algo (o objeto do desejo), chega perto, mas nunca o alcança — porque, no fundo, o que mantém a cena viva é a distância. O desejo não quer o objeto; quer o abismo entre si e o objeto. E quando o abismo desaparece, o desejo morre ou se horroriza. Por isso a fantasia é tão importante: ela nos protege da proximidade com aquilo que supostamente queremos.
Em Looking Awry, Žižek compara esse movimento ao paradoxo de Aquiles e a tartaruga: por mais rápido que seja o herói, ele nunca alcança o bicho. E isso não é um erro lógico — é uma imagem exata do que o desejo é. Quanto mais tentamos alcançar o objeto, mais o objeto se desloca. Não por capricho, mas por estrutura. O que desejamos, no fundo, é o percurso. O movimento. A excitação da busca. O sexo, nessa lógica, é muitas vezes um fim antecipado. Um fechamento prematuro da história.
Leader mostra que esse descompasso entre desejo e ato não é uma patologia: é o normal. O estranho seria o contrário. Mas nós, com pressa de resolver a tensão, inventamos saídas simbólicas. Sexo, amor, paixão, intimidade, pornografia, casamento, poliamor, trisal, solitude radical. Nenhum deles dá conta. Porque nenhum deles é o desejo. São todos modos de atravessar o labirinto — mas o desejo é o próprio labirinto.
Lacan vai além: “não há relação sexual.” A frase, muitas vezes mal compreendida, não significa que não transamos. Mas que não há ponto de encaixe simbólico total entre dois sujeitos desejantes. Há sempre desencontro. Mesmo na maior intimidade, há uma solidão que não cede. E talvez a gente goze — como Lacan diz — apesar disso. Ou melhor: por causa disso. O gozo nasce da rachadura, não da fusão.
Essa rachadura não é um acidente — é a própria condição da experiência humana. E quando a ignoramos, quando fingimos que ela não está ali, o que surge é o mal-estar. O sexo vira cobrança. O desejo vira dívida. O corpo vira projeto. E o encontro vira uma performance.
Mas e se aceitássemos que o desejo não quer se realizar? E se, ao invés de sufocá-lo com respostas, a gente o escutasse como pergunta? Uma pergunta que nunca quer resposta, mas apenas companhia.
A fantasia é mais forte que o corpo
Se o desejo não quer se realizar, a fantasia é o palco onde ele ensaia sem precisar estrear. Fantasiar é desejar sem a consequência do real. É manter o desejo vivo, mas protegido daquilo que poderia destruí-lo: a realização. É por isso que a fantasia não é um adorno do desejo — ela é a sua condição.
Darian Leader mostra que há pessoas que desejam tanto… que não fazem sexo. Não por repressão, mas porque o desejo ganha forma e sustento na fantasia, não no ato. Quando o corpo entra em cena, ele é estranho, pesado, difícil. A fantasia é leve, limpa, ajustada à medida daquilo que sonhamos. O corpo, não. O corpo escorrega, soa, atrasa. Ele nunca diz exatamente o que a gente quer dizer. E é nesse desencontro que o desejo pode morrer — ou enlouquecer.
Julia Kristeva vai mais fundo. Em Powers of Horror, ela nos mostra que o corpo é também aquilo que precisa ser rejeitado para que o “eu” se constitua. O que é abjeto — fluidos, cheiros, restos — nos lembra que somos matéria, e não apenas discurso. O sexo, então, se torna ambíguo: ao mesmo tempo em que nos excita, nos ameaça. Ele nos aproxima do prazer e do colapso. Do êxtase e da abjeção.
É por isso que, muitas vezes, o corpo do outro não nos excita tanto quanto a ideia do corpo. A fantasia é mais potente que a carne. Mais plástica. Mais obediente. E, justamente por isso, mais segura. Quando estamos em cena — no corpo a corpo —, já não controlamos a narrativa. E o desejo, que na fantasia era eloquente, pode ali emudecer. Ou se transformar em medo, culpa, silêncio.
Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, escreve como quem escuta esse silêncio. Seus fragmentos são os cacos da fala amorosa que tenta dizer o desejo e falha. “Falo muito de mim porque ninguém me ouve”, ele escreve. E talvez o mesmo aconteça com o sexo: falamos dele porque não conseguimos fazer com que ele diga tudo o que gostaríamos. O sexo real nunca se iguala à fantasia — e é por isso que seguimos fantasiando.
Žižek completa esse quadro dizendo que a fantasia é uma “janela de segurança”. Uma ilusão necessária que estrutura o desejo sem entregá-lo ao real. Fantasiamos para não ter que tocar aquilo que nos desmontaria. E mais: fantasiamos não para realizar o desejo, mas para mantê-lo funcionando. A fantasia não satisfaz — ela sustenta. Ela é a moldura que permite que o desejo não desmorone diante da brutalidade do mundo.
Talvez seja por isso que o sexo explícito — aquele que promete “mostrar tudo” — muitas vezes nos deixa frios. Porque não há mistério, não há jogo, não há distância. Tudo já está ali. E o desejo, sem distância, se dissolve. O erotismo não é o corpo nu — é o véu que o cobre. É o gesto que não termina. A promessa que não se cumpre.
Kristeva nos lembra: somos constituídos tanto pelo que abraçamos quanto pelo que expulsamos. E talvez desejemos, sobretudo, aquilo que o corpo não pode sustentar. Porque o corpo, como tudo que é real, resiste, cansa, sangra. E o desejo, para sobreviver, prefere a leveza do que nunca se realiza.
A cena sexual como teatro cultural
Se o desejo se movimenta por ausência e a fantasia é seu palco seguro, o sexo acaba encenado num teatro que não é só íntimo — é também social. Sexo não é só carne; é linguagem, performance, papel. E se a fantasia organiza o desejo, a cultura organiza a fantasia. O que desejamos, como desejamos e o que consideramos desejável tem menos a ver com nossa essência e mais com os roteiros que aprendemos a seguir.
Michel Foucault, especialmente em As Confissões da Carne, desmonta a ideia de que vivemos sob uma repressão sexual. Ao contrário: nós falamos de sexo o tempo inteiro. Mas falamos como quem obedece. Cada vez que narramos nossos desejos, estamos, sem perceber, obedecendo à estrutura de uma confissão: há um sujeito, uma autoridade simbólica (médico, terapeuta, algoritmo, pastor ou namorado) e uma espera por redenção. O desejo precisa ser exposto, vigiado, interpretado. E quanto mais falamos, mais nos tornamos prisioneiros daquilo que dizemos.
O sexo moderno não é silêncio — é discurso. E, como todo discurso, ele é uma forma de poder. A sexualidade não é só uma experiência. É uma construção. Um campo de regras, expectativas e normas. E quanto mais tentamos "nos libertar", mais entramos em novas formas de controle. O “sexo livre” também precisa performar algo: desejo constante, criatividade, intensidade, ausência de ciúme, ausência de tabu, ausência de silêncio. Até o gozo se tornou um imperativo.
Judith Butler entra nessa conversa com um golpe certeiro: o gênero é performativo. Não descreve quem somos — produz o que parecemos ser. Ao repetirmos certos gestos, palavras, roupas e expressões, encarnamos uma identidade. Assim também funciona o desejo: aprendemos a desejar como quem aprende a atuar. O problema é que nem sempre o desejo obedece o roteiro. E quando o desejo escapa, é comum que a gente tente corrigir o corpo — e não o script.
Butler nos provoca: e se o que chamamos de “normal” for apenas o mais ensaiado? E se a diferença entre homem e mulher, entre ativo e passivo, entre viril e vulnerável, for menos biologia e mais dramaturgia? E se o incômodo que sentimos diante de certos corpos for, na verdade, o incômodo de ver o roteiro falhando?
Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, já havia nos dado essa pista: não se nasce mulher — torna-se. E tornar-se é submeter-se a um olhar, a um campo de expectativas que antecede o corpo. A mulher, diz Beauvoir, é ensinada a desejar sendo desejada. Seu valor está no quanto ela é amada, admirada, escolhida — não no que ela própria escolhe. Esse modo de viver o desejo atravessa séculos e se atualiza em cada selfie, em cada aplicativo, em cada pornografia que encena a mulher como objeto de gozo e não como sujeito desejante.
Mas os homens também sofrem sob esse teatro. A masculinidade, muitas vezes, é construída como uma performance de certeza e potência. E essa atuação esmaga qualquer possibilidade de desejo que passe pela vulnerabilidade, pelo afeto, pelo não-saber. O homem não pode vacilar. E o desejo, que é feito de vacilo, se torna uma ameaça.
O resultado? Um teatro de corpos que não se ouvem, que se encenam, que se procuram por papéis — e não por presença. Um espetáculo onde a intimidade é improvisada dentro de personagens exaustos.
Talvez por isso a fantasia seja mais interessante que a cena real. Porque nela, o desejo pode ser imperfeito. Pode errar a fala, pode não saber o fim. E talvez a única forma de reencontrarmos o outro seja saindo do palco. Ou pelo menos, rasgando o script.
O que queremos quando dizemos que queremos sexo?
Talvez o sexo seja só o nome mais curto — e mais seguro — para aquilo que não sabemos nomear. Desejamos o toque, sim. O corpo, sim. Mas também desejamos o susto. O espelho. A escuta. O abismo e o cuidado. O desaparecimento e a permanência. E como tudo isso é demais para caber numa palavra só, a gente chama de sexo.
Darian Leader nos mostrou que o sexo é muitas vezes um sintoma. Uma tentativa de resolver o que não tem solução. De fechar com pele o que está aberto na alma. De traduzir com gemido o que não tem língua. Mas talvez seja justamente o oposto que nos salve: não tentar resolver — mas sustentar a pergunta.
Byung-Chul Han, em A Agonia do Eros, diz que estamos perdendo a capacidade de ver o outro como mistério. Vemos o outro como reflexo, como extensão do nosso desejo, como função do nosso prazer. Queremos alguém que nos devolva a imagem que amamos de nós mesmos. Mas o outro verdadeiro — o outro como diferença, como alteridade, como ruptura — esse nos ameaça. E por isso o evitamos. Mesmo quando estamos sobre ele.
Talvez o sexo, tal como o usamos, seja um modo de domesticar o outro. De reduzir o enigma à anatomia. De fazer do mistério um contrato. Mas o desejo, se for verdadeiro, sempre escapa da ordem. Ele é desobediência. Não por capricho — mas por vocação. Porque desejar é, no fundo, se colocar em movimento. E o que se move não aceita ser domesticado.
Quando dizemos que queremos sexo, talvez estejamos dizendo: quero ser tocado no lugar onde eu mesmo não chego. Quero alguém que me desorganize com cuidado. Que me veja sem me capturar. Que me escute até o silêncio. Que me deseje para além do que eu entrego. Mas tudo isso é perigoso demais. Então a gente finge que só quer sexo.
É mais fácil. É mais rápido. É mais vendável. E, às vezes, é até gostoso.
Mas no fundo — lá onde a pele já não esconde nada — a gente sabe: sexo é o nome errado para o que queremos.


Que grata surpresa ler isso, acho que o Darian ficaria muito feliz em conhecer esse texto. Parabéns, mano! Que sensibilidade em escrever.