Sempre disponível, mas nunca presente
Lamentavelmente, na época de estímulos em que vivemos, ter a atenção de alguém é praticamente uma prova de amor.
Sem perceber, abrimos mão da nossa capacidade de estar atentos e presentes. Fazemos isso em nome da facilidade de conexão, alimentando a ilusão de que, ao estarmos enfadonhamente disponíveis, seremos mais produtivos.
As redes sociais nos mantêm sempre acessíveis (on-line), mas raramente presentes. Hoje, somos epidérmicos¹, movidos por sensações e estímulos. O que nos prende não são as experiências, mas as telas, os números de mensagens, as curtidas, os e-mails não lidos e a necessidade irracional de reagir a qualquer notificação.
Esse comportamento nos torna cansados, desatentos e alienados da realidade que se desenrola ao nosso redor. O WhatsApp, por exemplo, tornou-se uma grande ferramenta do caos. As mensagens não são categorizadas por importância; simplesmente acumulam números, misturando o trivial com o essencial. Lá, as ansiedades de outros se tornam invasões que consomem o nosso tempo e atenção.
Durante a madrugada, olhamos os celulares. Eles são os primeiros para quem corremos ao acordar, seguindo o mantra de verificar o que foi “perdido”. Até o final do dia, horas terão sido dedicadas ao que deveria ser uma ferramenta, mas que se transformou em um aparelho aprisionador. Já teremos visto memes, participado de diálogos impertinentes em grupos e priorizado o que nem estava em nossos planos para aquele dia.
A lógica de estar disponível para quem está distante nos tornou indisponíveis para quem está ao nosso lado — ou apenas parcialmente disponíveis, o que é igualmente lamentável. Um bom diálogo só parece possível quando a tela do celular está virada para baixo — ainda assim, torcemos para que a ansiedade não nos faça conferir, inúmeras vezes, se “algo importante foi enviado”.
Enganamo-nos pensando que somos “multitarefa”, quando na verdade somos apenas desatentos e ausentes, incapazes de estar completamente presentes em diálogos ou momentos. Hipnotizados pelas telas, negligenciamos a tela da vida.
Da mesma forma que, em um relacionamento amoroso, estar com alguém significa não estar com nenhuma outra pessoa, no universo das vivências, só é possível experimentar algo plenamente quando se está verdadeiramente ali. Na época de estímulos incessantes em que vivemos, conseguir a atenção de alguém tornou-se, lamentavelmente, uma prova de amor.
¹ Termo utilizado por Christoph Türcke em Erregte Gesellschaft.

