Retórica Predatória
O outro foi transformando em inimigo das minhas ideias, não é mais aquele com que preciso conviver.
Bolsonaro é um fenômeno político e social profundamente interessante. Tenho estudado sua figura há alguns anos, mantendo cautela diante da esperança messiânica que o cerca desde o início.
Há muito o que dizer, ainda que pouco seja digerido racionalmente — especialmente por aqueles que, como diria Pondé, são caninamente fiéis ao seu político favorito.
Aqui, quero explorar um aspecto retórico utilizado por Bolsonaro desde o início: aquilo que Michel Meyer, filósofo belga e professor na Universidade Livre de Bruxelas, chama de retórica do predador.
Em sua obra Questions de Rhétorique, Meyer estabelece que, para essa lógica retórica, convencer é vencer. O objetivo é a exclusão do terceiro, do discordante. Essa exclusão pode ocorrer de várias formas, inclusive concedendo descrédito ao terceiro ou a qualquer meio de verificação utilizado para questionar o retor (aquele que emprega a retórica).
Por que a análise da retórica é importante? Veja: para Robert Danisch, ela possui uma relação intrínseca com a democracia. Katharina Sobota afirma que a retórica é responsável pela construção de teias linguísticas que estabelecem — inclusive — o que é justo ou injusto. Essas teias, para Nietzsche, precisam ser constantemente tecidas.
As teias retóricas da democracia, como apontado recentemente pelo amigo e mestre Isaac Reis, revelam a necessidade do outro. O outro não é apenas essencial para a convivência, mas também para o amadurecimento e a verificação de nossas ideias sociais e políticas. O silenciamento do outro, portanto, é uma ameaça direta à democracia.
Silenciar como? Talvez tornando ilegítima uma eleição sem o voto impresso e auditável — mesmo tendo sido ele próprio eleito pelo voto eletrônico. Ou transformando em comunista qualquer indivíduo (ou mídia) que se oponha às suas atitudes e ideias. Esse processo gera um violento delírio coletivo.
Estamos caminhando para algo semelhante ao que ocorreu no Capitólio, em janeiro? Por Deus, espero que não. Mas o terreno pode estar sendo pavimentado. O outro foi transformado no inimigo das minhas ideias, não mais naquele com quem devo conviver.
Isso não nasceu agora, mas logo falaremos mais sobre o tema!

