Rasos
George MacDonald irá deixar claro que “tudo que existe de difícil indica algo mais que nossa teoria de vida consegue abarcar”.
Há situações na vida que demandam profundo respeito. Infelizmente, nem todos compreendem essa verdade em nossos dias. Tocqueville já previa que as democracias fomentariam a tagarelice. Talvez nunca tenhamos presenciado uma época em que as pessoas falassem tanto, transformando o ato de opinar em mero esporte.
A sabedoria no falar tornou-se rara — e tende a se tornar ainda mais escassa. Hoje, o ato de expressar uma opinião é frequentemente considerado mais importante do que a compreensão dos cenários aos quais ela se refere.
Sou um admirador da história do personagem bíblico Jó. Creio que ele seja uma das maiores referências sobre dor e sofrimento.
Quando Elifaz, Bildade e Zofar, amigos de Jó, o visitaram, choraram diante do imenso sofrimento daquele homem. Mais do que isso, silenciaram por sete dias e sete noites, quase como em reverência ao que presenciavam.
Pergunto-me: se a história de Jó se passasse em nossos dias, quanto tempo os visitantes demorariam para despejar uma sabedoria rasa sobre aquilo que viam?
Aprecio a forma como Sören Kierkegaard aborda essa questão. Ele dizia que “muitas pessoas tiram suas conclusões sobre a vida como aluninhos do ensino fundamental. Enganam seu mestre copiando respostas de algum livro sem terem eles mesmos trabalhado para atingir o resultado final”.
Esses “aluninhos” da vida são empoderados pela ditadura da opinião que impera em nossos tempos. Ignoram a complexidade que os cerca e as lições que podem ser aprendidas na dor e no sofrimento — mesmo que estes pertençam a outra pessoa.
George MacDonald sintetiza bem essa ideia ao afirmar: “Tudo que existe de difícil indica algo mais que nossa teoria de vida consegue abarcar.” Eis uma verdade que não pode ser perdida. Os amigos de Jó, apesar das contradições teológicas em seus discursos (com exceção do mais novo deles), contemplaram em silêncio a dor e o sofrimento do amigo.
A dor e o sofrimento que nos cercam podem ser uma dádiva para nossa própria reflexão e amadurecimento. Não existem para que apliquemos a elas nossas frágeis teorias sobre a vida e seus meandros — como se fossem verdades incontestáveis. Ao contrário, existem para que essas teorias sejam refutadas e, eventualmente, abandonadas.

