Quem tem ouvidos para ouvir, ouça
possibilidade e sensibilidade do ouvir hermenêutico
Compreender-interpretar não é uma simples atividade. Quando realmente ocorre, a compreensão-interpretação exige a possibilidade da sensibilidade. O provérbio, repetido várias vezes no Novo Testamento, parece trazer essa lógica de forma poética.
Sim, há uma diferença no que é dito no texto bíblico. O ato de ouvir está relacionado a um desafio à sensibilidade espiritual diante das afirmações do evangelho, sobretudo aquelas feitas por Cristo. Sem trair o princípio do provérbio, ele também nos ensina sobre compreensão-interpretação além das linhas teológicas. Só ouve quem tem ouvidos para ouvir. Posto de outra maneira: só compreende-interpreta quem tem a possibilidade e a sensibilidade para fazê-lo.
Só ouve quem tem a possibilidade de fazê-lo. Sei que essa afirmativa soa ultrajante, especialmente em uma época que sacramentou as opiniões como se fossem verdades. Falar em possibilidade de compreensão-interpretação é admitir que alguns pontos de vista, embora legítimos do ponto de vista da liberdade de expressão, são inúteis quando pretendem ter qualquer precisão interpretativa — seja ela conceitual ou técnica. Isso porque Gadamer já tornara claro: “Ser aberto ao outro significa reconhecer que o que nos é estranho pode nos desafiar e nos transformar”.
Para interpretar, é preciso compreender. A emancipação desenfreada das opiniões afugenta as possibilidades interpretativas. Por que se esforçar para compreender algo, quando minha opinião é soberana quanto à realidade que me cerca? Por que trilhar o caminho da compreensão, se ele me mostrará que aquilo que chamo de certeza precisará ser amadurecido ou corrigido?
Por esse motivo, quase de forma profética, Platão já via indivíduos assim como:
“Aqueles, pelo contrário, que não são verdadeiramente filosóficos, mas só têm o verniz da filosofia, como quem tem o corpo bronzeado pelo sol,
vendo o empenho que a coisa requer, pensam que é demasiado difícil, ou mesmo impossível, e se convencem de que já sabem bastante e de que não têm necessidade de mais.” — Platão, 342
Quando leciono Retórica Jurídica, sempre lembro aos alunos que a racionalidade pode não ser a regra discursiva predominante que eles encontrarão em sua vida profissional. Falo observando a realidade daqueles que brincam de interpretar o que está além da estatura de suas opiniões, acariciadas e não amadurecidas. Alerto-os, levando em consideração os indivíduos que não se permitem a possibilidade de compreender-interpretar.
Penso também nos casos onde não existe a sensibilidade necessária para que se possa compreender e interpretar. No império das opiniões — sobretudo aquelas ideologicamente sufocadas, criadas e nutridas nas próprias experiências —, não habita a possibilidade de olhar pela janela e contemplar realidades distintas. Em situações assim, a presunção de analisar o todo a partir de um prisma pessoal é chamada de sabedoria — quando deveria ser vista como tolice.
Não há hermenêutica sem alteridade. Levinas esclarece isso ao dizer que “a sensibilidade à alteridade é o que nos permite transcender o que é familiar e abrir-nos ao significado que vem do outro”. Num mundo cujas realidades estão limitadas aos próprios valores e experiências, os limites do mundo se expandem através do outro. Somente na interação com o outro, como diria Mikhail Bakhtin, podemos interpretar verdadeiramente, com sensibilidade e abertura à sua voz.
A hermenêutica não é a arte de ecoar nossas próprias concepções; é um caminho que só transforma quando há, em nós, uma “disposição para ouvir aquilo que ainda não sabemos” (Gadamer). Não é a jornada dos insensíveis e autorreferentes, mas os passos daqueles que, sem se amedrontarem pelo barulho acovardado dos que resistem, ousam seguir os feixes de luz que os guiam para além das cavernas que os aprisionam.

