Quando o horror vira espetáculo
White bear, round 6 e o estupro da Filadélfia
“Vamos, vamos pela escada que se atribui ao progresso, à civilização e à cultura. Mas aonde se vai? Realmente, não sei.” — A. P. Tchekhov
Uma mulher é estuprada em um metrô na Filadélfia. Metrô vazio? Não. Havia pessoas no vagão onde o crime ocorria. O que fizeram? Elas gravaram o crime enquanto ele acontecia. Diante das câmeras, o assédio deu lugar ao estupro — e tudo se tornou um “show” que durou 45 minutos. Precisei de tempo para processar a notícia — quanto mais para escrever sobre ela.
Parecia ficção. A cena remete ao episódio “White Bear”, da série Black Mirror. Nele, uma mulher sofre constantes violências enquanto, ao invés de ajuda, recebe o olhar passivo e os celulares apontados de quem apenas a grava. A ficção ganhou vida no nosso cotidiano. Somos uma sociedade bárbara que transforma o horror em espetáculo, ao invés de fazê-lo parar.
Não há palavras que descrevam a impiedade do ocorrido. A cena fala por si. Mas o que esse evento me fez pensar, além da monstruosidade evidente? Fez-me perceber que só conseguimos nos espantar com os resultados dos processos que vivemos, mas os próprios processos não nos causam espanto algum.
Como interpretar é algo raro hoje em dia, preciso pontuar: este texto não minimiza a aberração ocorrida. Meu objetivo é localizar minha reflexão para além dela. O que aconteceu na Filadélfia não nasceu no dia 13 de outubro.
Se o horror é convertido em “arte” — seja para o entretenimento de espectadores passivos ou para aqueles que protagonizam o compartilhamento dessas atrocidades, em busca de validação e projeção —, isso ocorre por um processo no qual todos estamos imersos.
Se você julgou as pessoas que estavam no metrô, lembre-se: elas não têm exclusividade no consumo do horror como entretenimento. Hoje, a brutal série Round 6 está entre os programas mais assistidos da Netflix em mais de 90 países, incluindo o Brasil. Pergunto: qual a diferença entre os VIPs da série, que vibram com cada morte ali representada, e os que assistem ao espetáculo diante de suas telas?
O horror não é construído do dia para a noite. É resultado de uma longa jornada de dessensibilização e espetacularização. Precisamos despertar para os processos que nos intoxicam, mas que também, espantosamente, desnudam nossa natureza.

