Quando nos falta complexidade
O que é amor? Quando se diz que se ama alguém, qual o significado da sentença? Ela pode possuir um único significado (e intenção) ou pode…
O que é o amor? Quando dizemos que amamos alguém, qual é o significado dessa afirmação? Trata-se de uma sentença que possui um único sentido e intenção, ou ela pode ser compreendida de diferentes formas? Como ama uma mãe? Para ela, o amor pode ser aquilo que a move a cuidar dos filhos, que se tornam, talvez, a razão de sua existência. O amor seria o que justificaria cada sacrifício, lágrima, incompreensão e anseio. Seria essa a única definição possível de amor?
E como ama um jovem apaixonado por uma moça que ele considera a mais bela, aquela a quem decidiu dedicar sua vida? Para ele, o amor pode ser a força que o impulsiona a construir uma história a dois, a escrever páginas de uma jornada compartilhada. O amor seria o que dá sentido a cada gesto, atenção, empenho e cuidado. Mas, afinal, qual dessas concepções é correta? Elas se complementam ou se excluem? E, mais ainda, essas descrições simples capturam de fato o que uma mãe ou um jovem amante sentem?
Por que falar de amor? Cito o amor porque ele nos é comum; porque — idealizado, superficial ou vivido em sua profundidade — todos o experimentamos de alguma forma. Ele nos acompanha desde a infância até o momento em que olhamos para trás e vemos a história de duas vidas que se entrelaçaram e deram início a novas narrativas. Contudo, apesar de ser tão presente em nossa experiência, falhamos em analisar seu significado e suas nuances.
E se fracassamos na compreensão do amor, o que dizer daquilo que para nós é apenas ideia, talvez uma ideologia? Vivemos em uma era onde deduções sobre temas complexos são frequentemente tratadas como verdades absolutas. Refletimos com a profundidade de um pires. Há pensamentos que carecem de imersão, ponderação ou vivência — são, muitas vezes, afirmações rasas sobre questões vastas.
Nos falta deslumbramento diante do que é maior do que nós, do que é complexo. Anos de reducionismo cognitivo, aliados à facilidade de expressão oferecida pelas redes sociais, transformaram pensamentos frágeis em declarações dogmáticas.
Voltemos à questão do amor: ela demonstra que cada manifestação dele é legítima em si mesma, enquanto qualquer conceito único — ou perspectiva isolada — é insuficiente para abarcar sua realidade. E se não conseguimos esquadrinhar o amor que sentimos e que opera em nós, como podemos estar tão seguros sobre ideias de mundo que estão além do alcance de nossas mentes e mãos?
Se a hermenêutica — como apontado por Schmidt — é “interpretação”, como podemos interpretar algo sem o deslumbramento, ou mesmo um certo temor, diante da complexidade das coisas? E não apenas deslumbramento: como intencionar interpretar, ou seja, ser mediador entre o dito e sua motivação, se praticamos insensibilidade e banalizamos o que nos cerca?
Quando nos falta complexidade, nos falta a capacidade de interpretar. Seja a hermenêutica uma habilidade, uma arte, uma metodologia ou uma ciência; seja o contexto acadêmico, político ou cotidiano; a busca pela sensibilidade diante do que é complexo — mesmo quando aparentemente simples — é o fundamento essencial de nossa jornada por compreender.

