Quando ler se torna um risco
cancelamento, fragilidade e o colapso da formação universitária
Me parece que há algo profundamente errado quando a universidade — espaço historicamente dedicado ao confronto de ideias — passa a tratar livros como ameaças. Não porque falham teoricamente, mas porque se tornaram moralmente inconvenientes. Foi isso que se viu recentemente nos Estados Unidos, quando universidades públicas, submetidas a novas diretrizes estatais contra a chamada “ideologia de gênero”, passaram a excluir textos clássicos de seus programas. Entre eles, Platão. Não por insuficiência filosófica, mas por ser considerado “perigoso”.
O episódio não se resume a uma excentricidade administrativa ou a um excesso pontual de zelo político. Ele ocorreu no contexto de legislações estaduais que impõem limites ideológicos ao ensino superior, levando docentes a revisar — e, em alguns casos, a autocensurar — seus próprios planos de aula. O resultado é perverso: não se discute mais como ler certos textos, mas se eles podem ser lidos. O problema, nesse ponto, já não é pedagógico. É civilizacional.
O caso de Platão não é isolado — é sintomático. Sintoma de uma cultura intelectual que confundiu crítica com veto, interpretação com julgamento e formação com proteção. A universidade, que deveria ensinar a lidar com a complexidade do pensamento, parece cada vez mais empenhada em eliminá-la preventivamente, como se o desconforto intelectual fosse uma falha ética a ser corrigida.
Há uma diferença decisiva — e sistematicamente ignorada — entre criticar um autor e silenciá-lo. Criticar pressupõe leitura, mediação histórica, distinções conceituais e responsabilidade interpretativa. Cancelar, ao contrário, pressupõe interrupção. Não se responde a uma ideia difícil: elimina-se o acesso a ela. Não se enfrenta o conflito: administra-se o desconforto. O cancelamento não é uma forma radical de crítica; é a sua negação.
O argumento que sustenta esse movimento costuma apelar à moral. Certas ideias seriam inaceitáveis. Certos autores, irrecuperáveis. Certos textos, perigosos demais para circular em sala de aula. Mas essa lógica carrega uma armadilha: ao transformar a moral em critério de acesso ao pensamento, ela substitui o juízo crítico por um filtro prévio. O problema deixa de ser como ler e passa a ser se é permitido ler. Nesse ponto, a universidade abdica de sua função formativa e assume o papel de curadora moral do pensamento.
Não se trata de negar que autores clássicos carreguem ideias hoje consideradas problemáticas. Trata-se de perguntar algo mais incômodo: em que momento a incapacidade de lidar criticamente com essas ideias passou a ser interpretada como virtude ética? Quando a fragilidade do leitor foi convertida em justificativa institucional para o empobrecimento do debate? E, sobretudo, quem ganha quando a tradição intelectual é tratada como um campo minado a ser interditado, e não como um território a ser atravessado criticamente?
Este ensaio parte de uma tese simples e desconfortável: o cancelamento acadêmico não é sinal de avanço moral, mas de regressão intelectual. Ele não fortalece a democracia; corrói suas condições de possibilidade. Ao silenciar autores difíceis, a universidade não forma leitores mais éticos — forma leitores menos capazes. E quando a leitura se torna um risco a ser administrado, o pensamento já foi domesticado.
Cancelar não é criticar
Uma das confusões mais persistentes do debate contemporâneo é tratar o cancelamento como uma forma radicalizada de crítica. Não é. O que se chama hoje de “cancelar” não pertence ao campo da crítica, mas ao da administração moral do discurso. Criticar é um exercício intelectual exigente; cancelar é uma decisão sumária. A crítica pressupõe leitura, mediação histórica e enfrentamento conceitual. O cancelamento exige apenas um juízo prévio — rápido, moral e terminal — sobre o que deve ou não circular.
A hermenêutica filosófica sempre deixou isso claro. Para Hans-Georg Gadamer, compreender um texto não é repetir seu sentido original nem julgá-lo a partir de critérios externos, mas sustentar uma fusão de horizontes entre passado e presente. Essa fusão não elimina o conflito; ela o torna produtivo. Quando a universidade decide que certos textos não podem sequer ser lidos, rompe essa mediação e substitui a interpretação pelo veto. O problema já não é como compreender, mas se é permitido compreender.
O cancelamento, nesse sentido, é a recusa da historicidade. Autores do passado passam a ser avaliados como se escrevessem hoje, sob as mesmas categorias morais e políticas, como se o tempo não fosse um elemento constitutivo do sentido. Trata-se de um anacronismo travestido de virtude ética. Em vez de perguntar o que um texto revela sobre o mundo que o produziu — e, por contraste, sobre o nosso — pergunta-se apenas se ele pode ser tolerado. O pensamento deixa de ser interpretado; passa a ser filtrado.
É nesse ponto que a separação entre autor e obra se torna decisiva. Roland Barthes mostrou, de forma contundente, que reduzir o sentido de um texto à intenção ou à moralidade de seu autor é empobrecer radicalmente a leitura. A obra não pertence mais a quem a escreveu; ela se abre no encontro com o leitor. Quando essa distinção é abolida, não se produz mais crítica — produz-se julgamento moral retroativo. E julgamentos morais não substituem interpretação.
O efeito disso é devastador para a formação intelectual. Se o valor de um texto já está decidido antes da leitura, o leitor se torna irrelevante. Não se lê para compreender, tensionar ou discordar, mas para confirmar um selo moral previamente atribuído. A universidade deixa de formar intérpretes e passa a treinar consumidores de posições corretas. O conflito, que deveria educar, é tratado como risco. A dificuldade, que deveria formar, é vista como ameaça.
Cancelar, portanto, não é pensar melhor — é pensar menos. É substituir o trabalho da crítica pelo conforto da interdição. É trocar o esforço da interpretação pela facilidade do veto. E, quando a universidade faz isso, não está protegendo seus estudantes: está confessando a própria incapacidade de formar leitores à altura da complexidade do pensamento.
Ideias condenáveis invalidam teorias inteiras?
A pergunta é incômoda, mas inevitável: até que ponto ideias moralmente condenáveis comprometem uma teoria inteira? É aqui que o debate costuma colapsar. Em vez de critérios, surgem reflexos. Em vez de análise, sentenças morais. A resposta rápida — “sim, invalidam” — pode soar eticamente satisfatória, mas é intelectualmente frágil. Ela confunde reprovação moral com avaliação teórica.
Nenhuma tradição séria de pensamento operou assim. Teorias não são blocos morais homogêneos; são estruturas conceituais complexas, atravessadas por tensões internas, limites históricos e ambiguidades que exigem leitura cuidadosa. A pergunta correta, portanto, não é se um autor errou — todos erraram —, mas como, onde e em que medida esses erros atravessam o núcleo de suas ideias.
É nesse ponto que a hermenêutica mostra sua força. Para Paul Ricœur, interpretar é sempre lidar com conflito, ambiguidade e excesso de sentido. Textos não se esgotam em uma única leitura, nem se reduzem a um único eixo moral. A interpretação madura não elimina o problema; ela o sustenta. Onde há textos difíceis, há trabalho hermenêutico — não interdição.
Se levamos isso a sério, alguns critérios se tornam inevitáveis. Primeiro: a ideia condenável é estrutural ou periférica à teoria? Está no coração do argumento ou nas margens históricas de sua formulação? Segundo: trata-se de um elemento normativo — prescritivo — ou descritivo, ligado ao contexto social do autor? Terceiro: essa ideia pode ser criticada internamente, a partir dos próprios pressupostos da teoria, ou apenas rejeitada externamente por critérios alheios a ela?
Essas distinções não são exercícios acadêmicos vazios; são o mínimo exigido para que o pensamento não seja reduzido a tribunal moral. Ignorá-las é optar pela simplificação. E a simplificação, quando institucionalizada, não produz justiça intelectual — produz empobrecimento cognitivo.
O caso de Platão é exemplar justamente por isso. Sim, há passagens profundamente problemáticas em sua obra, sobretudo quando lidas à luz de sensibilidades políticas contemporâneas. Mas reduzi-lo a essas passagens é desconhecer a própria natureza do pensamento filosófico. Platão não é um conjunto de respostas prontas; é um campo de problemas. Cancelá-lo não é corrigir seus erros — é abandonar as perguntas que ele ainda nos obriga a enfrentar.
Há, nesse gesto, algo ainda mais revelador: a recusa da ambivalência. A cultura do cancelamento não sabe o que fazer com autores que são, ao mesmo tempo, fecundos e problemáticos. Incapaz de sustentar essa tensão, opta pela eliminação. Mas pensamento que só tolera autores moralmente puros não é pensamento crítico — é catecismo secularizado.
A exigência de pureza moral absoluta aplicada retrospectivamente ao cânone revela menos sobre os autores julgados e mais sobre os julgadores. Ela denuncia uma dificuldade profunda de lidar com a complexidade, com a contradição e com o fato elementar de que a tradição intelectual é, por definição, imperfeita. Exigir o contrário é exigir uma história que nunca existiu.
A pergunta, portanto, precisa ser invertida: o que acontece com uma cultura acadêmica que só se permite dialogar com ideias moralmente inofensivas? A resposta é dura, mas clara: ela perde a capacidade de formar juízo. E onde não há juízo, resta apenas conformidade.
A pedagogia da proteção
Há um deslocamento silencioso em curso na cultura acadêmica contemporânea: o problema deixou de ser o autor difícil e passou a ser o leitor incapaz de lidar com a dificuldade. A exclusão de textos não nasce apenas de julgamentos morais sobre o passado, mas de uma nova pedagogia implícita — a pedagogia da proteção. Protege-se o estudante não do erro, mas do desconforto. Não da falsidade, mas do conflito. Não da ignorância, mas da experiência de ser confrontado por ideias que não se ajustam às suas sensibilidades.
Esse movimento foi descrito com precisão empírica por Jonathan Haidt e Greg Lukianoff ao analisarem o que chamaram de coddling da mente universitária. A lógica é simples e devastadora: ao ensinar jovens adultos a interpretar desconforto intelectual como dano psicológico, a universidade mina as condições básicas da formação crítica. O conflito deixa de ser formativo e passa a ser tratado como ameaça.
O efeito disso é a inversão completa do ideal educativo. Em vez de formar leitores capazes de atravessar textos difíceis, treinam-se leitores que exigem ambientes intelectualmente assépticos. A leitura passa a ser medida não por sua capacidade de ampliar o horizonte do estudante, mas por seu potencial de causar mal-estar. O critério de seleção deixa de ser epistemológico ou pedagógico e se torna terapêutico. Não se pergunta mais se um texto é intelectualmente relevante, mas se ele é emocionalmente seguro.
É aqui que a crítica de Byung-Chul Han se torna decisiva. Ao descrever uma cultura que elimina sistematicamente a negatividade, Han mostra como o excesso de positividade produz sujeitos incapazes de lidar com resistência, alteridade e contradição. Aplicada à universidade, essa lógica transforma o espaço do pensamento em um ambiente de validação permanente. Tudo o que fere, questiona ou desestabiliza deve ser neutralizado. O pensamento crítico, que sempre foi uma experiência de atrito, passa a ser visto como violência simbólica.
Nesse cenário, o cancelamento não é um desvio ocasional, mas uma consequência estrutural. Se o leitor é concebido como vulnerável por definição, o texto precisa ser domesticado. Se o desconforto é interpretado como falha ética, a dificuldade intelectual precisa ser removida. O resultado é uma universidade que não ensina a pensar contra si mesma — ensina apenas a reconhecer o que já se pensa.
Há algo profundamente paradoxal nisso tudo. Nunca se falou tanto em emancipação, diversidade e pluralidade, e nunca se tolerou tão pouco a experiência real da diferença intelectual. A alteridade é celebrada em abstrato, mas rejeitada quando aparece concretamente sob a forma de ideias incômodas. O outro é bem-vindo desde que não desestabilize. O pensamento é aceito desde que não confronte.
O leitor frágil não é uma figura natural; é produzido. Produzido por instituições que trocaram a formação pelo cuidado excessivo, a crítica pela gestão emocional, o risco intelectual pela segurança simbólica. Ao fazer isso, a universidade não apenas empobrece o debate — redefine silenciosamente o que significa aprender. Aprender deixa de ser atravessar o desconforto em direção ao juízo e passa a ser evitar tudo aquilo que exige maturidade interpretativa.
Esse é o ponto em que o problema deixa de ser apenas acadêmico e se torna político. Uma sociedade que forma leitores incapazes de lidar com ideias difíceis não está apenas falhando pedagogicamente. Está preparando cidadãos incapazes de sustentar desacordo, conflito e pluralismo real.
Quando a fragilidade vira política
Até aqui, o cancelamento poderia ser lido como um desvio cultural: excesso de zelo, confusão pedagógica, medo do conflito. Mas o problema muda de natureza quando essa lógica deixa de operar apenas no plano das sensibilidades e passa a orientar decisões institucionais. Quando o veto não é mais informal, mas normativo; quando não parte apenas de grupos, mas do Estado ou da administração universitária, o que está em jogo já não é gosto acadêmico — é liberdade intelectual.
É nesse ponto que a exclusão de textos deixa de ser um erro pedagógico e se torna um problema político. Não se trata mais de debates entre leitores, mas de definição autoritária do que pode ser lido. A universidade deixa de ser espaço de formação crítica e assume o papel de curadora moral do pensamento. Não se ensina a julgar; decide-se previamente o que merece julgamento.
Esse risco foi formulado com clareza clássica por John Stuart Mill. Para Mill, silenciar uma ideia — mesmo quando ela é falsa ou ofensiva — é roubar da sociedade a possibilidade de confrontá-la racionalmente. Uma ideia suprimida não é superada; é apenas deslocada para a sombra, onde não pode mais ser criticada. Quando o Estado ou suas instituições decidem o que pode circular, não protegem a verdade — fragilizam-na.
O argumento de que certas ideias devem ser excluídas para proteger grupos vulneráveis pode soar nobre, mas carrega uma consequência corrosiva: substitui o debate público pelo paternalismo institucional. O estudante não é tratado como sujeito capaz de julgamento, mas como alguém a ser preservado do próprio ato de pensar. A formação crítica cede lugar à tutela moral.
É justamente aqui que a análise de Stanley Fish se torna incômoda — e necessária. Fish lembra que a liberdade acadêmica não é um slogan abstrato, mas uma prática institucional específica: ensinar, pesquisar e discutir ideias sem subordinação a agendas morais ou políticas externas. Quando a universidade passa a alinhar seus currículos a critérios ideológicos impostos de fora — sejam eles progressistas ou conservadores — deixa de ser universidade. Torna-se extensão de um projeto de poder.
O mais perverso desse processo é sua aparência de legitimidade. Não se fala em censura, mas em “cuidado”. Não se fala em proibição, mas em “ambiente seguro”. Não se fala em controle, mas em “responsabilidade institucional”. A linguagem suaviza o gesto, mas o efeito permanece: certos pensamentos deixam de existir publicamente. E quando isso acontece, não é apenas um autor que some do currículo — é a própria possibilidade de discordância que se estreita.
Há uma inversão silenciosa em curso. Aquilo que antes era considerado risco democrático — o controle do pensamento pelo poder — passa a ser apresentado como virtude administrativa. A universidade, que deveria funcionar como espaço de resistência intelectual ao dogmatismo, passa a reproduzir a lógica que deveria criticar. O pluralismo deixa de ser prática viva e se torna retórica vazia.
Quando a fragilidade do leitor se transforma em política institucional, o pensamento crítico perde sua função social. Em vez de formar cidadãos capazes de sustentar desacordo, a universidade passa a produzir sujeitos treinados para evitar o conflito. E uma democracia habitada por sujeitos assim não precisa ser atacada de fora: ela se dissolve por dentro.
Liberdade não é proteção: é exposição
O discurso do cancelamento costuma se apresentar como defesa da liberdade. Liberdade de não ser ofendido. Liberdade de não ser exposto a ideias consideradas nocivas. Liberdade de aprender em ambientes emocionalmente seguros. O problema é que essa concepção de liberdade, embora sedutora, é profundamente empobrecida. Ela reduz a liberdade à ausência de atrito e transforma a formação intelectual em um exercício de evitação.
É precisamente aqui que a contribuição de Axel Honneth se torna decisiva. Em Das Recht der Freiheit, Honneth mostra que a liberdade moderna não é um estado psicológico nem um sentimento subjetivo de conforto. Ela é uma prática social institucionalizada, sustentada por relações de reconhecimento que permitem aos indivíduos se verem como autores responsáveis de seus próprios juízos. Onde essas práticas falham, a liberdade não se realiza — degrada-se.
Aplicado à universidade, isso tem consequências diretas. Um ambiente que protege sistematicamente o estudante do confronto intelectual não amplia sua liberdade; reduz-a. Ao eliminar o conflito, elimina-se também a possibilidade de formação do juízo. O sujeito não aprende a responder a ideias difíceis, mas a exigir que elas sejam removidas. O reconhecimento deixa de passar pela capacidade de argumentar e passa a depender da validação institucional de sensibilidades.
Nesse sentido, o cancelamento não é um excesso moral bem-intencionado, mas uma patologia social da liberdade. Ele surge quando instituições que deveriam promover autonomia passam a operar como instâncias de tutela. Em vez de formar sujeitos capazes de sustentar desacordo, produzem sujeitos dependentes de curadorias morais. A liberdade, esvaziada de seu conteúdo prático, transforma-se em slogan defensivo.
Há aqui uma inversão grave. A tradição moderna sempre entendeu que a liberdade exige risco: risco de errar, de ser confrontado, de rever convicções. O cancelamento inverte essa lógica ao tratar o risco como algo a ser eliminado. Mas uma liberdade sem risco não é liberdade — é administração de comportamento, adaptação silenciosa a um ambiente previamente higienizado.
Honneth insiste que a realização da liberdade depende de instituições que confiam na capacidade dos sujeitos de participar de práticas racionais compartilhadas. Quando essa confiança é substituída pela suspeita — suspeita de que o estudante não suporta o conflito, de que o leitor não sabe lidar com o dissenso — a instituição abandona sua função emancipatória. O que se preserva não é a dignidade do sujeito, mas a sua imaturidade.
Nesse ponto, o cancelamento revela sua natureza mais profunda. Ele não nasce do excesso de crítica, mas da desconfiança na formação. Pressupõe que certos conflitos são insuportáveis, que certas ideias são intraduzíveis, que certos textos são perigosos demais para serem enfrentados. Trata-se, no fundo, de uma renúncia silenciosa ao ideal moderno de autonomia.
Se a liberdade depende de práticas que nos expõem ao outro — ao pensamento estranho, incômodo, perturbador — então uma universidade que organiza seus currículos para evitar essa exposição não está ampliando a liberdade. Está ensinando a evitá-la. E uma sociedade que aprende a evitar a liberdade não precisa de censura explícita para se fechar: aprende a se autocensurar.
Quando o passado é interditado, o presente é domesticado
Em 1984, George Orwell não descreve apenas um regime autoritário explícito. Ele descreve algo mais sutil — e mais eficaz: o controle do presente por meio da reescrita do passado. Não é preciso queimar livros quando se pode torná-los impróprios. Não é necessário proibir diretamente quando basta declarar certos textos perigosos, inadequados ou moralmente inaceitáveis. O resultado é o mesmo: aquilo que não pode ser lido deixa de poder ser pensado.
A exclusão de autores clássicos do currículo acadêmico não é um detalhe administrativo nem um exagero isolado. É um gesto simbólico poderoso. Ele ensina, silenciosamente, que o pensamento só é legítimo quando não incomoda. Que a tradição só é aceitável quando se ajusta aos critérios morais do presente. Que a leitura não é um exercício de formação, mas um risco a ser gerenciado. Nesse cenário, a universidade não forma leitores críticos — forma sujeitos treinados para evitar o conflito.
O mais grave é que tudo isso ocorre em nome da liberdade, da proteção e do cuidado. Mas uma liberdade que não suporta o dissenso não é liberdade; é conforto. Um cuidado que elimina a dificuldade não educa; infantiliza. E uma proteção que retira do estudante o direito de enfrentar ideias difíceis não o dignifica — fragiliza-o. O cancelamento acadêmico não corrige os erros do passado; revela a insegurança do presente.
Ao transformar a moral em filtro prévio do pensamento, a universidade abdica de sua vocação mais elementar: ensinar a julgar. Julgar exige leitura, mediação, paciência e coragem intelectual. Exige sustentar a tensão entre crítica e compreensão, entre discordância e responsabilidade. Cancelar, ao contrário, exige apenas decisão. Rápida, limpa, confortável. Mas intelectualmente estéril.
Não é Platão que está em julgamento aqui. É a própria ideia de formação. Uma cultura acadêmica que só tolera autores moralmente alinhados ao presente não está avançando eticamente; está se fechando intelectualmente. Troca a crítica pela triagem, a interpretação pela interdição, a autonomia pela tutela. E, quando isso acontece, o pensamento deixa de ser um risco necessário e passa a ser um produto seguro.
A pergunta final, portanto, não é se certos autores merecem ser lidos. A pergunta é outra — e mais incômoda: que tipo de universidade se forma quando ler se torna um problema? Se a resposta for uma universidade que evita o conflito, silencia o passado e administra o presente, então não estamos diante de um avanço civilizacional. Estamos diante de um recuo disfarçado de virtude.
O pensamento crítico não nasce da proteção contra ideias perigosas, mas da capacidade de enfrentá-las. Onde essa capacidade é abandonada, não há emancipação possível — apenas conformidade bem-intencionada. E uma democracia formada sob esse signo não precisa ser censurada à força. Aprende, sozinha, a não pensar.

