Por uma direita misericordiosa
No texto, parto de um silogismo simples, mas que merece atenção: se a direita brasileira é formada — em sua maioria — por cristãos, surpreende a falta de humildade e misericórdia que, em grande parte da sua expressão midiática, tem sido demonstrada.
Há uma parcela da direita que se apresenta estranhamente voraz. Voraz como o chifre “de começos pequenos”, descrito no livro de Daniel. Voraz como todo movimento que tenta construir uma Canaã terrena — na ânsia de realizar, aqui e agora, a plenitude daquilo que espera. Voraz em nome da família, dos valores, dos bons costumes. Voraz como afirmava ser a sua antecessora.
Por que o espanto diante dessa atitude? Ele já existia por motivações oriundas da Filosofia Política e do Direito, mas foi na linguagem teológica que encontrou maior expressão. Uma frase, inúmeras lições: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mateus 5.4).
Pouco antes, Cristo declara: “Bem-aventurados os pobres de espírito.” São “aprovados diante de Deus” (uma tradução mais próxima do contexto) aqueles que reconhecem sua insuficiência. Insuficiência para salvar a si mesmos, para fazer o que é correto diante do Senhor, para conduzir adequadamente o próprio cotidiano.
O choro é uma atitude daqueles que são humildes de espírito. Sim, choram por sua própria condição pecaminosa, mas também choram pelo que ocorre ao seu redor. Choram porque a alma do mundo sufoca diante da opressão do pecado. Choram como Cristo chorou por Jerusalém, antes de pesarosamente anunciar o que lhe aconteceria. Choram porque a mesma graça misericordiosa que transformou suas vidas os move a exercer misericórdia por aqueles ao seu redor.
O chamado à vida em Cristo não parece ser para uma incansável guerrilha retórica. Parece-me estranho que o Cristo que perdoou Seus algozes enquanto agonizava na cruz deseje que Seus discípulos gerem dor e causem escárnio. Ele os chama a tomar Sua cruz, não a oprimirem. Ele os convoca a serem sal e luz, sabendo que é o Seu Espírito que convence o mundo de justiça, pecado e juízo.
E se estou errado em minha análise? Prefiro humildemente errar no caminho da ponderação a incorrer na voracidade do sectarismo.

