Partidarismo e desumanidade
Nos consideramos demasiadamente politizados, mas agora nos falta humanidade — a essência de tudo o que o humanismo tentou construir.
Uma diarista de 52 anos. Uma senhora humilde, que pouco entende de política. Desde os 8 anos, trabalhou na roça — uma realidade comum a tantas famílias do interior. Hoje, vivendo em dificuldades financeiras, sobrevive de “bicos” como diarista.
O que atenua a realidade de seu armário vazio? As marmitas que ela e os três filhos recebem. Pequenos alívios em dias difíceis, mas que, de repente, a tornaram conhecida.
Ela tem um jeito humilde, uma voz tímida, quase envergonhada. No último sábado (10), sua história e sua voz ganharam as redes. Enquanto segurava a marmita que acabara de receber, foi questionada sobre sua preferência política para a presidência.
Disse que votaria em Lula. Não por entender profundamente de política, mas por admirar o “vozeirão” dele. Para ela, Lula é alguém como ela, alguém que “sempre foi pelas pessoas pobres”. Sua resposta, no entanto, custou caro. Foi humilhada. Disseram-lhe que aquela seria sua última marmita. Que, a partir daquele momento, pedisse ajuda ao Lula.
O empresário que a gravava e ridicularizava, sorria enquanto falava. Não parecia se dirigir a ela, mas à sua plateia: aqueles que assistiriam ao vídeo. Sua intenção era clara — exibir o quanto, aos olhos dele, a diarista era ignorante. Queria mostrar que, apesar de gostar de Lula, era de um bolsonarista que recebia as marmitas.
No sábado, sua marmita custou a dignidade. Para o empresário, ela era menor, menos digna. Não era uma pessoa diante dele, mas um peão político. Uma ferramenta para provar um ponto, mesmo que isso significasse rebaixá-la e humilhá-la.
Por conta de política, ela foi considerada menos humana. Uma prática que, tristemente, seguimos repetindo. Desumanizamos pessoas por diferenças religiosas, políticas, sociais — e por tantas outras categorias que insistimos em criar.
O mais triste? A política, que deveria ser um campo de embates ideológicos e soluções para a convivência humana, tornou-se um instrumento de desumanização.
Não enxergamos mais o valor de um indivíduo por sua essência, por sua humanidade. O que vemos agora são bandeiras políticas, tons de pele, identidades e orientações sexuais. E assim, enquanto nos consideramos demasiadamente politizados, nos afastamos do que mais importa: a humanidade — a base de tudo o que o humanismo tentou construir.

