Os primeiros interlocutores
Esse texto servirá para esboçar uma proposta inicial hermenêutica, em linguagem mais acadêmica, por assim dizer. Dessa forma, a compressão…
Esse texto servirá para esboçar uma proposta inicial hermenêutica, em linguagem mais acadêmica, por assim dizer. Dessa forma, a compressão do que seria um esboço de diálogo consegue ganhar corpo através de obras referenciais. Para início, utilizarei o trabalho de dois autores que me foram bastante úteis em minha formação da hermenêutica jurídica. especificamente na fenomenologia jurídica.
A descrição dos traços fundamentais que norteiam a compreensão hermenêutica de Gadamer dispõe-se de forma sistemática em sua obra “Verdade e Método”. Esta é fruto desenvolvido pela influência de Martin Heidegger, que foi que seu professor na Philipps-Universität Marburg. Em inúmeros sentidos, o trabalho de Gadamer dialoga com o feito previamente por Heidegger.
Ambos possuem como marco, o evento conhecido como a virada linguística. Em virtude desta, a hermenêutica passa a não ser vista como uma mera ajuda metodológica ou didática para outras disciplinas, sendo imersa num contexto “mais amplo” de atuação. Dessa forma, deixa de se referir apenas à comunicação tomada como simbólica e ininteligível, passando a ser contextualizada, de modo mais amplo, a toda vida humana e suas demandas de diálogo e interpretação.
Em “Ser e Tempo”, obra publicada por Heidegger em 1927, que possui fundamento estruturante em torno do sentido do ser. Seu estudo não inaugura a indagação acerca deste tema, mas esta é fruto de centenas de anos e correntes de pensamentos que possuem as mais variadas compreensões de como o ser se define como tal, ou como pode ser entendido como tal. Essas concepções possuem uma grande amplitude que vai do ininteligível ou transcendental (uma concepção dita na manifestação cristã medieval de o ser compreender-se como algo intangível a razão humana, possuindo extrema ligação com o divino e o desconhecido) até o cogito cartesiano e sua “inauguração” da possibilidade de desvelar o ser, no sentido filosófico de compreendê-lo como o ser, não de torná-lo um ente.
A proposta deste estudo nos obriga a revisar a noção histórica que possuímos do ser, ideia que, como dito, em análise preliminar, se apresenta sumariamente ligada à ideia da presença — compreendida com uma específica relação temporal -, assim sendo, a relação de estudo do sentido de ser está ligada à noção de temporalidade, o tempo — que desponta como um grande referencial na obra de Heidegger.
Entretanto, é necessário determinar onde deve ser o ponto de partida do estudo para a compreensão possível do ser, bem como daquilo que se pretende desvelar. O filósofo alemão orienta a referida questão utilizando-se do balizamento de três questões fundamentais, ou pólos, dizendo que: de um lado, há aquilo que questionamos, o questionado (das Gefragte), o que perguntamos a seu respeito, o perguntado (das Erfragte), e aquilo que perguntamos para obter, a respeito do questionado, o perguntado: o interrogado (das Befragte) [1].
Partindo desse pressuposto, a apreensão correta do que pode se definir por metodologia é que esta não é, como dito pelo filósofo, uma mera “questão de suas técnicas transitórias, mas de sua lógica de justificação”[2]. Posto isto, o método deve ser compreendido como um “fundamento lógico em que baseia a sua aceitação ou rejeição de hipóteses ou teorias”[3].
Gadamer utiliza a palavra Vorurteile (preconceitos) para se referir a ao sistema referido por Heidegger no que tange à questão dos pré-juízos, ou pré-conceitos. A metodologia proposta por este para esse olhar hermenêutico, postula-se no intento de que a posição prévia (Vorhabe) seja maturada pelo compreender do que se propõe o estudo. Dessa forma, a visão prévia (Vorsicht), envolvida por um pré-conceito, tende necessariamente para uma maturação, a ponto de a concepção prévia (Vorbegriff) ser ampliada quando comparada à concepção final do que se estuda.
Seu modelo não propõe uma negação da posição, visão e concepção prévia. Na verdade, qualquer estudo consiste na aproximação ante a completude que se refere ao Dasein, ou seja, o ser-aí. Este é o que é por sua formação história e de linguagem. Contudo, no que concerne a interpretação, mesmo que a aproximação do estudo seja iniciada com toda a “carga prévia” do ser, o desenvolver deste deverá implicar do despir dessa pré-conceituação para um modelo tido por base na coisa por-si ou em-si.
[1] DUBOIS, Christian. Heidegger: uma introdução a leitura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor., 2004. 15 p.
[2] RUDNER, Richard S. Filosofia da ciência social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1969, p. 19
[3] RUDNER, Richard S., Op. Cit., 19 p.

