O que esperar do ano novo?
2020 não deve ser um ano “cancelado”, como a maioria espera fazer. Ele deve ser revisitado, até que suas lições sejam aprendidas.
O que esperar do ano novo? Uma pesquisa recente do Datafolha constatou que 68% dos brasileiros acreditam que 2021 será melhor que 2020. Pergunto-me: quais são as suas garantias?
Se a vacina contra a COVID-19 está — teoricamente — às portas (teoricamente, considerando o despreparo e a inércia do governo brasileiro), sua variante, o Sars-CoV-2, já se encontra em solo brasileiro.
O ano de 2020 frustrou a filha predileta da burguesia: a ciência. Ela se dobrou diante de um vírus que, inicialmente, não representava grandes ameaças ao mundo científico. No entanto, a realidade mostrou-se disforme diante do número de contágios e mortes que marcaram o ano.
E essa mesma ciência não parece garantir, ao menos por ora, uma nova página para o que vivemos. Apesar dos grandes esforços dedicados à produção da vacina, ela já começa a ser colocada à prova pela variação do vírus que agora circula.
Creio que 2020 deveria ter nos ensinado uma lição: a vida, tal como a conhecemos, não é perene. Ela não flui como um rio tranquilo, sem grandes corredeiras ou desvios. A vida é frágil, instável e exige vigilância constante — como tudo o que é verdadeiramente precioso.
A pandemia também nos mostrou algo que a nova geração tende a ignorar: as instituições sociais, frequentemente atacadas por universitários e intelectuais, levam apenas semanas para serem fragilizadas — ainda que tenham sido erguidas ao longo de séculos.
Mas será que isso significa que 2021 deve ser o ano da desesperança? Não. Devemos adentrá-lo com humildade, reconhecendo nossa pequenez e incapacidade diante do que nos cerca. A frustração do ego deveria, sempre, conduzir à reflexão e ao amadurecimento.
Assim como a economia prevê o impacto prolongado da pandemia em 2021, deveríamos iniciar este ano com um espírito humilde, compreendendo — ou redescobrindo — que a felicidade reside na simplicidade do essencial. Esquecemos, muitas vezes, que simplicidade não significa carência, mas suficiência.
2020 não deveria ser um ano “cancelado”, como tantos desejam. Ele precisa ser revisitado, até que suas lições sejam aprendidas. Do contrário, continuaremos sendo os mesmos seres soberbos que se surpreenderam com a contingência da vida diante da pandemia.
Um feliz ano novo!
Que 2021 nos traga amadurecimento e crescimento!

