O que é o Homem? E no que ele se tornou
notas antropológicas introdutórias
Não apenas por ser uma das minhas áreas de pesquisa, mas tenho refletido bastante sobre a espiritualidade humana. Contudo, não parto de um olhar religioso, mas da ótica da antropologia filosófica — buscando preparar o terreno para, em breve, explorar notas sobre a antropologia jurídica.
O termo “espiritualidade” pode ter sua origem no catolicismo francês do século XVII. Esse movimento religioso trazia uma visão profundamente clerical, no sentido de considerar o clero como o grupo mais “sensível” e preparado para compreender as questões da vida que transcendem o aspecto material.
Aristóteles usa νοῦς para se referir à dimensão intelectual ou intelectiva. O termo indica que a vida intelectual é responsável pelo movimento autônomo e racional do indivíduo, além de ser sensível à ordem cósmica — um tema que desenvolverei em outro texto.
Com a modernidade, a espiritualidade humana foi radicalmente separada da ideia de religiosidade. Essa cisão também a afastou da noção progressiva de “aperfeiçoamento” e do culto a um “supremo bem”. Ficamos condenados a nos tornar a medida de nossa própria imagem, vivendo cada vez mais deslocados e dominados pelas sensações — como observou Christoph Türcke.
Embora queiramos acreditar no contrário, contemplar a humanidade está longe de contribuir para sua glória. Não é prudente encarar o ser humano com base em ideias que sustentem “uma confiança inabalável na bondade intrínseca do homem” ou no “misticismo da nobreza humana”.
Se o homem fosse sua própria medida, a introspecção bastaria, e as ciências humanas e sociais perderiam seu sentido.
Como bem apontou André Comte-Sponville, a antropologia moderna transformou a palavra “homem” em um conceito. Esse conceito pode ocupar lugar em uma teoria (ou várias), que nos ensinam um pouco melhor, ou muito menos mal, ou até muito pior, o que somos e o que podemos ser.
Ele nos lembra que a modernidade negligenciou algo fundamental: definir o ser humano por aquilo que ele deve ser significa, em última análise, defini-lo por aquilo que ele ainda não é. Ser humano, portanto, é ser razoável, é ser capaz de realizar algo a partir de sua própria negatividade — reconhecendo-a. É produzir o que ainda não é a partir do que é.

