O Predomínio das Sensações
Acredito que o trabalho filosófico, em sua fundamentação, parte da sensação de que algo não está “correndo” muito bem. A investigação do…
O trabalho filosófico, em sua essência, parece nascer da sensação de que algo não está “correndo” bem. A investigação do pensamento se debruça mais sobre a potencialidade dos nossos erros do que sobre uma honrosa busca por feitos realizados com maestria. Há uma miragem — ressignificada inúmeras vezes — na catedral que habitamos e analisamos. Essa miragem talvez seja um dos mais densos nevoeiros que nos envolve, para além das vidraças.
Essa ilusão está alicerçada em um cenário de fluidez material, desaparecimento de fronteiras, excesso de informações e exposições midiáticas, e na estetização da vida. É preciso compreender que o mercado, além de operar no plano tangível da produção, tem infiltrado suas lógicas no imaterial, no imaginário, no onírico — espaços onde amplifica sensações agradáveis nas mentes dos consumidores. O simbólico, o sensível, o prazer hedonista criado pelo encantamento das marcas, pela experiência sinestésica, pelo design, pela beleza, pela aura de completude, envolve um consumidor que busca, acima de tudo, um encantamento estético em meio à profusão de conteúdos.
Como apontaram Lipovetsky e Serroy, vivemos a última era da estetização do mundo: a era transestética. Esse momento marca o fim das grandes oposições que dominaram a era anterior. O que caracteriza a nova era é a abundância, o cruzamento, as sobreposições — misturas entre criação e entretenimento, entre arte e show business, entre comunicação e moda. O importante agora não são os significados profundos, mas as sensações, as experiências sinestésicas, os prazeres imediatos.
“O capitalismo artista tem como característica criar valor econômico por meio do valor estético e experimental: ele se afirma como um sistema conceptor, produtor e distribuidor de prazeres, sensações e encantamentos. Em troca, uma das funções tradicionais da arte é assumida pelo universo empresarial. O capitalismo se tornou artista por estar sistematicamente empenhado em operações que, apelando para estilos, imagens e entretenimento, mobilizam os afetos, os prazeres estéticos, lúdicos e sensíveis dos consumidores. O capitalismo artista é a formação que liga o econômico à sensibilidade e ao imaginário; ele se baseia na interconexão do cálculo e do intuitivo, do racional e do emocional, do financeiro e do artístico.”
Nesse estágio transestético, o mercado adensa sua presença nas relações do indivíduo consigo mesmo e com a cidade ao seu redor. Com as necessidades básicas saciadas, o consumidor contemporâneo é guiado pela busca de emoções, pelo desejo de pequenos prazeres, por experiências agradáveis e pelo usufruto de bens de qualidade sensorial, simbólica e estética. A estetização do mundo, usando o termo de Lipovetsky, silencia os questionamentos fundamentais ao ofuscar a vida com o brilho amorfo das sensações temporais. Diante desse ofuscamento, tudo o que é duradouro ou essencial parece desinteressante, entediante, desprovido de valor.
O lamentável? Quando essa vivência é observada de dentro — nos reflexos da vidraça da catedral — ela parece reluzir algo sólido. Mas, vista de fora, o brilho da vida que se contempla é tão tangível quanto a neblina. Contudo, essa é uma questão para outro momento.

