O estranho em casa: quando o lar já não nos reconhece
E se a tua própria casa já não soubesse mais quem tu és?
Voltar nem sempre é reencontro. Às vezes, é descobrir que o lugar que chamávamos de lar não nos acolhe como antes. O cheiro mudou, os gestos mudaram, até os silêncios soam estranhos. E o mais desconcertante: talvez quem tenha mudado não seja só o lugar — sejamos nós.
Ulisses viveu isso. Depois de mares, monstros e glórias, voltou para Ítaca disfarçado de mendigo. Não foi recebido com festa, mas com dúvida. Precisou suportar o desconforto de ser estrangeiro na própria casa. E não é isso que tantas vezes também acontece conosco?
No trabalho que já não nos reconhece. No corpo que já não responde como antes. Na fé que já não aquece como outrora. Nos vínculos que parecem não caber mais. Voltamos — mas não sabemos mais como habitar.
O Estranhamento do Retorno
Ulisses sabia que voltar não seria simples. Não era só enfrentar pretendentes ou recuperar a casa perdida — era atravessar a prova íntima de não ser reconhecido. O retorno, que deveria ser descanso, se tornou desassossego.
Esse é o drama de todo regresso: o lugar que um dia chamamos de lar já não é mais o mesmo, e nós também já não somos. Entre o antes e o agora, o tempo desenhou ausências, feridas, mudanças sutis que se acumulam como pó sobre os móveis. Voltar nunca é simplesmente voltar.
E talvez seja por isso que hoje tantos de nós evitamos o retorno. É mais fácil continuar partindo — para novos trabalhos, novos vínculos, novos prazeres instantâneos — do que encarar a estranheza de permanecer onde algo já não é mais igual.
O Drama de Hoje
Vivemos em uma época que celebra o movimento e desconfia da permanência. A cultura nos treina para estar sempre de passagem, como turistas no próprio cotidiano. Mas o preço é alto: vínculos que não amadurecem, raízes que não se firmam, casas que não nos reconhecem.
O resultado é um tipo de exílio invisível: moramos em lugares, mas não habitamos. Ocupamos funções, mas não nos sentimos parte. Voltamos para casa, mas carregamos dentro de nós a sensação de estrangeiro.
E esse estranhamento corrói por dentro. Ele nos rouba a confiança de que é possível reconstruir, reaprender, recomeçar no mesmo solo. Faz parecer que tudo precisa ser substituído — quando talvez o verdadeiro chamado seja permanecer.
O Convite
É justamente esse dilema que quero atravessar contigo no curso Ulisses e o drama do retorno: entre a glória e o cotidiano.
Durante quatro encontros, vamos seguir Ulisses e suas provações — as partidas, as ilhas, os monstros e, por fim, o retorno — em diálogo direto com as perguntas que nos atravessam hoje: por que é tão difícil voltar? Como enfrentar os monstros da ansiedade, do cansaço, da transparência? Como reconstruir vínculos quando já não somos os mesmos?
Este não é um curso sobre mitologia antiga, mas sobre a nossa vida aqui e agora. Uma travessia simbólica para quem sente que algo se perdeu no caminho e deseja reencontrar o que ainda importa: o corpo, a casa, os vínculos, a si.
P.S. — Informações do curso
O curso Ulisses e o drama do retorno: entre a glória e o cotidiano acontece em quatro encontros no mês de outubro, nos dias 07, 14, 21 e 28, sempre às terças-feiras, das 19h às 21h.
As inscrições podem ser feitas diretamente pelo WhatsApp: clique aqui para se inscrever.
As vagas são limitadas.

