O delírio da bondade
Em meu último texto, um jovem comentou que celebraria a morte de homicidas, “fundamentando-se” em Provérbios 11.10 — que destaca a palavra “perverso”. Não escrevo para responder ao comentário, mas para refletir sobre algo mais profundo.
Rashaʿ, o termo hebraico usado nesse versículo, refere-se a alguém culpado de um crime, um indivíduo hostil a Deus. A lógica bíblica é simples: todo ser humano é “hostil a Deus” até que seja alcançado pela graça, justificado pelo sangue de Cristo e adotado Nele. E mesmo depois disso, tudo o que de bom é realizado por ele — ou através dele — ocorre porque é obra do Redentor e existe para a Sua glória.
O cristão vive na alegria de ser uma nova criatura, mas essa alegria deve caminhar lado a lado com uma constante humildade, fruto da certeza de que nenhum mérito próprio está envolvido em sua transformação.
A vida em Cristo sufoca a ideia do perfeccionismo — e não só ela. O perfeccionismo é uma ilusão que frequentemente afagamos e reinventamos em várias esferas da vida. Há aqueles que habitam as igrejas para se sentirem melhores que os “ímpios”. Outros tentam se destacar por meio do conhecimento, da crença em uma ideologia ou de qualquer outra suposta superioridade.
Nossa natureza respira imperfeição, assim como tudo o que tocamos. Estou comunicando desesperança? Ao contrário, apelo à prudência. O que chamo de delírio da bondade não é a negação de que algo bom possa ser feito por nós, mas uma crítica àqueles que se consideram irreversivelmente bons, puros e justos. Temam todos eles!
A certeza de nossa imperfeição é frequentemente o ponto de partida para a maturidade, ao nos confrontar com a realidade de quem realmente somos. A religião não existe para massagear nossos egos, mas, antes de tudo, para que reconheçamos a rebeldia e a insubordinação que habitam em nós. O Direito, por sua vez, não existe porque somos bons e racionais, mas precisamente para evitar a barbárie em nossa convivência.
Nossas ideias — sejam elas religiosas, sociais, políticas ou jurídicas — não devem se fundar na certeza de nossa bondade ou infalibilidade. É melhor que sejam acompanhadas pelo temor das nossas imperfeições e estejam sempre prontas a se curvar diante do espanto causado por suas incoerências — sejam elas percebidas por nós ou reveladas pelo outro.

