O caminho de volta: quando o regresso é mais árduo que a partida
por que a maior travessia não é ir, mas escolher ficar?
Aprendemos a ir antes mesmo de aprender a chegar. O mundo nos treinou para o movimento — trocar de cidade, de emprego, de relacionamento, de opinião. E quando não nos movemos por fora, nos movemos por dentro: pensamentos que saltam de uma coisa a outra, afetos que duram o tempo de uma notificação.
No início, essa habilidade de partir parece liberdade. Quem não quer ter a porta sempre aberta para novos caminhos? Mas, aos poucos, descobrimos o preço: vínculos que não amadurecem, histórias que ficam pela metade, a estranha sensação de estar sempre de passagem, mesmo dentro de casa.
Ulisses sabia tudo sobre partidas. Partiu de Troia carregando glória, conquistas e cicatrizes. Mas a lição mais difícil não foi derrotar monstros nem atravessar mares — foi aprender a voltar. E talvez nós estejamos na mesma travessia: a de descobrir que permanecer é mais árduo do que ir embora.
O medo de ficar
Vivemos na lógica da substituição. Zygmunt Bauman chamou isso de “modernidade líquida”: vínculos e compromissos que escorrem pelas mãos porque nunca se solidificam. É mais fácil trocar do que consertar, fugir do que enfrentar. A mobilidade virou sinal de inteligência, e a permanência, de ingenuidade.
No trabalho, aprendemos a manter sempre um plano de fuga: currículos atualizados, redes atentas a oportunidades, desconexão emocional do lugar onde estamos. Nos relacionamentos, tratamos a intimidade como um produto com prazo de validade — quando perde o brilho, basta descartar. Até na espiritualidade, saltamos de experiência em experiência, evitando raízes que nos peguem de surpresa.
Essa cultura alimenta um medo silencioso: o de nos tornarmos previsíveis demais para que alguém continue nos escolhendo. É mais seguro estar em trânsito, sem dar tempo para que a convivência revele nossas falhas.
Mas a consequência é um cansaço que não admite descanso. Sem lugares onde possamos permanecer, ficamos condenados a vagar — como viajantes que nunca largam a mala porque não têm certeza de onde será o próximo porto.
Ulisses e o estranhamento de voltar
Quando finalmente avistou Ítaca, Ulisses não se lançou às ruas anunciando seu retorno. Ficou na margem, observando. Finley lembra que o herói volta disfarçado, desconfiado, como quem sabe que a própria casa pode ter se tornado território hostil. Não era apenas o medo dos pretendentes de Penélope — era o receio de descobrir que o tempo tinha remodelado tudo.
O primeiro estranhamento foi dele: o cheiro, as vozes, as pequenas rotinas já não lhe pertenciam. Cada pedra parecia carregar uma história da qual ele não participou. Aquele não era mais o lugar que ele deixou, e ele já não era o homem que partiu.
Depois veio o estranhamento inverso: a dificuldade de ser reconhecido. Seus gestos, a força de suas mãos, a curvatura do seu corpo — tudo parecia outro. O retorno não era um simples reencontro, mas uma espécie de teste silencioso para saber se ainda havia lugar para ele.
É nesse ponto que a Odisseia revela sua lição mais dura: a verdadeira prova não é voltar, mas permanecer. Ulisses só recupera seu lar depois de atravessar o desconforto de ser, ao mesmo tempo, estrangeiro e dono da casa. Permanecer, aqui, é um ato de coragem.
Enraizar-se para viver
Simone Weil dizia que o enraizamento é a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. Sem raízes, advertia ela, o ser humano definha. Não se trata de permanecer no mesmo lugar físico a vida inteira, mas de manter vínculos profundos com pessoas, lugares e histórias que nos sustentem por dentro.
Para Weil, enraizar-se é o oposto de se apegar por medo — é criar laços que alimentam a identidade e dão sentido ao que fazemos. É estar presente de forma tão completa que o outro possa contar conosco, não porque somos insubstituíveis, mas porque somos fiéis.
O desenraizamento, por outro lado, cria uma espécie de anemia da alma. Tudo se torna intercambiável, nada é digno de compromisso. Perdemos a noção de pertencimento e, com ela, a coragem de permanecer quando as circunstâncias deixam de ser favoráveis.
Permanecer, nesse sentido, é mais do que resistir: é escolher, ativamente, investir no mesmo solo até que ele floresça de novo. É suportar o inverno na certeza de que ele prepara a primavera — e essa é uma forma de coragem que nossa época raramente celebra.
Práticas para permanecer
Permanecer hoje é quase um ato contracultural. Num mundo que nos incentiva a trocar de caminho ao menor sinal de desconforto, decidir ficar exige força e intenção. Mas não é uma permanência passiva — é um compromisso ativo com aquilo que vale a pena.
Podemos começar reinvertendo em vínculos: em vez de fugir diante das falhas alheias, escolher o caminho mais difícil de conversar, ajustar e reconstruir. Relações profundas se constroem na tensão entre imperfeição e cuidado.
Também podemos cultivar rituais domésticos que sustentem memória e presença: um jantar semanal, um hábito de leitura compartilhada, um tempo fixo de silêncio. São âncoras simples, mas que nos impedem de sermos levados pela corrente.
É preciso aprender a suportar o tédio — não como algo negativo, mas como o espaço onde a intimidade e a profundidade se formam. Quem só vive de estímulo em estímulo nunca descobre a beleza de simplesmente estar. Permanecer é dar tempo para que o tempo trabalhe em nós.
A coragem de permanecer
Partir é treino. Permanecer é arte. A primeira exige movimento; a segunda, enraizamento. E enquanto a cultura nos oferece mil mapas para a fuga, quase ninguém nos ensina o caminho de volta.
Ulisses só retomou sua casa depois de atravessar as provas internas de reconhecer e ser reconhecido. Talvez seja assim também para nós: antes de habitar plenamente um lugar ou relação, precisamos atravessar o desconforto de sermos estranhos no próprio lar.
Talvez seja hora de reaprender a permanecer. No dia 22, na Livraria Candeeiro, quero abrir essa conversa com você — sobre como encontrar o caminho de volta para casa e, sobretudo, como decidir ficar.

