miragens
a Catedral da Sé,
um monstro de pedra e vidro,
te faz olhar para cima
como quem busca Deus
no meio da luz filtrada.
torres que tocam o céu,
vitrais que dançam com o sol,
tudo ali te faz lembrar
o quanto você é pequeno,
o quanto o sagrado te engole.
mas e se,
ao invés de pedra e vidro,
a catedral fosse o mundo?
uma estrutura invisível,
feita das nossas vontades,
dos nossos demônios silenciosos,
como diria Freud.
uma catedral de ideias,
de utopias que fedem a fanatismo,
de crenças invertidas
que nos levam ao nada.
nossas ideologias
viraram novas religiões,
mas sem Deus.
nesta catedral contemporânea,
não há divino,
só miragens.
vultos e sons,
promessas vazias,
falsas felicidades
que fogem quando tentamos segurá-las.
ela não nos eleva,
ela nos esmaga.
nos reduz ao nada,
nos faz correr atrás
de sombras que nunca se tornam sólidas.
falar dessa Catedral das Miragens
é narrar o nosso próprio desespero.
não estar sob sua órbita
parece impossível.
mas resistir,
enxergar as ilusões,
é o que resta.
um lampejo de lucidez
no meio das sombras.
é caminhar,
um passo de cada vez,
tentando não se perder
nesse templo que habita em nós.
Poesia baseada no texto “A Catedral das Miragens”. Espero que sirva de reflexão sobre a semana consumista que vivemos.

