Meu cabelo é cacheado — e isso me deu humildade hermenêutica
Este não é um texto sobre beleza, mas quero começar falando sobre aparência. Descobri que tinha cabelo cacheado somente aos 14 anos. Até lá, como bom filho de pastor, meu cabelo era sempre penteado para o lado. Corte social, sem muita personalidade — uma extensão visual da imagem do meu pai.
Mas a vida me afastou dessa moldura. Fui morar longe de casa porque meus pais se mudaram para o interior, sem boas escolas, e acabei num colégio interno no interior da Bahia. Ir ao barbeiro era uma complicação: a distância, o custo e, principalmente, o tempo. Entre gastar horas cortando o cabelo e vivendo novas experiências, escolhi a segunda opção.
Aos 14, descobri que meu cabelo era cacheado. A princípio, achei estiloso. Durante mais de uma década, tinha acreditado que meu cabelo era quase liso. Errei. Mas, como adolescente, não cuidei muito dos cachos. Um creme genérico aqui, outro ali, escolhas limitadas pelas opções disponíveis. Apesar disso, aqueles cachos se tornaram uma parte de quem eu era.
Os anos passaram, e aprendi um pouco mais sobre cuidado capilar, embora meus cortes variassem. Ultimamente, senti saudade dos cachos — minha esposa os adora. Assim, os cachos voltaram, e eu, confiante, pensei: “Desta vez, já sei como cuidar deles.” Estava certo de que conhecia o tipo de produto, a rotina e os ajustes necessários para mantê-los.
Até que me enganei de novo.
Procurando um creme para modelar, o produto que usava estava em falta. A vendedora me ofereceu algo inusitado: uma jelly capilar. Parecia uma gosma infantil, daquelas que vinham em brinquedos. Recusei de imediato, mas a vendedora insistiu com paciência didática: aquele era o produto certo para modelar meus cachos longos. Meu creme anterior, explicou ela, não fazia mais do que desembaraçá-los.
Comprei a tal jelly, desconfiado. O resultado? Aos 35 anos, finalmente descobri o produto certo para o meu cabelo.
Onde quero chegar? Não, este não é um texto sobre dicas de beleza. Quero falar sobre cachos e humildade hermenêutica.
O caminho para a interpretação começa pelo reconhecimento do objeto. Para entendê-lo, é preciso primeiro vê-lo como ele é. Essa constatação deveria despertar em nós uma cautela humilde.
Tome meu caso como exemplo. Por causa das minhas experiências e da maneira como meu cabelo era cortado, passei anos sem saber uma verdade simples sobre minha aparência. Quando descobri que era cacheado, eu ainda não sabia cuidar dele. E quando achei que sabia, ainda me faltava algo.
Se levei 35 anos para entender como "pentear" meu próprio cabelo, como posso ser soberbo ao interpretar questões mais complexas?
Hoje, ao ver pessoas discutirem ferozmente seus pontos de vista, sinto vontade de perguntar: “Você conhece seu cabelo?. Kant talvez dissesse algo similar, embora de forma mais abrangente: “O conhecimento humano não está apenas limitado pelo que sabemos, mas pela maneira como somos condicionados a perceber.”
O ensaísta Jorge Luis Borges abordaria isso com poesia. Em O “Aleph”, ele afirma que “não há espelho que reflita o mundo como ele é, mas apenas como somos capazes de percebê-lo”. Meu espelho reflete minha imagem, mas também os limites de minha percepção. Ele mostra o mundo não como ele é, mas como eu sou capaz de vê-lo.
Esse texto não é sobre concordar ou discordar. É sobre cachos e humildade hermenêutica. Um convite para que você reflita sobre suas certezas. Será que conhece sua própria história, suas crenças, seus limites? Talvez o caminho para entender o outro comece pelo reconhecimento daquilo que ainda não sabemos sobre nós mesmos.
Como disse Shakespeare, “somos o que somos”, mas muitas vezes nem sabemos o que isso significa. O outro pode ser o espelho que nos ajuda a descobrir mais sobre quem somos.
E talvez, nesse processo, possamos aprender a cuidar não só dos nossos cabelos, mas também do que realmente importa: a convivência e a abertura para o aprendizado mútuo.


Puxa vida, que texto importante! Não conheço nem meus cachos, nem minha humildade hermenêutica, percebi.