Meritocracia e outras drogas
A meritocracia engana a si mesma, considerando que toda realização ocorrida em sua jornada tem como causa única os esforços empreendidos.
Este texto não trata de comodismo, tampouco endossa a ideia de que os resultados pertencem aos que nada fazem. Pelo contrário, ele busca refletir sobre a fragilidade de um discurso meritocrático que, em sua devoção, confunde esforço com exclusividade. O título não é irônico, nem despreza os que acreditam na meritocracia. Ele aponta para um fenômeno peculiar: a meritocracia opera como uma substância psicoativa, alterando a percepção da realidade e mascarando as nuances da jornada humana.
Minha análise não apenas identifica a meritocracia como uma teoria irreal sobre as trajetórias pessoais, mas também a acusa de insensibilizar seus devotos ante a beleza que os honestos podem encontrar nas suas próprias histórias.
A meritocracia é a exaltação ensoberbecida da dedicação. Ela se engana ao crer que todo sucesso advém exclusivamente do esforço pessoal. Ignora, assim, que muitos se dedicam ainda mais, sem colher os mesmos frutos. Onde, então, reside a diferença? Na inteligência que os guiou, poderia argumentar a meritocracia agonizante. Mas essa resposta é apenas mais uma tentativa de evitar o confronto com outros fatores igualmente determinantes.
Esse pensamento omite dois elementos cruciais de qualquer jornada: dádivas e misericórdias. Até os mais dedicados, aqueles cujas trajetórias inspiram grande admiração, se forem honestos, não poderão negar as dádivas que pontuaram suas histórias. Dádivas que surgem não apenas para coroar esforços, mas também para suprir lacunas quando a vida, com suas contingências, roubou o foco, desviou o caminho ou interrompeu os planos.
Nosso percurso é, sim, moldado pelo esforço, mas também pelas mãos que nos sustentaram nos passos que não poderíamos dar sozinhos. Reconhecer essa interdependência é o primeiro passo para a gratidão. O meritocrata, em sua lógica solitária, fala apenas de si. Já aquele que vê com sensibilidade a realidade de sua jornada sabe dirigir sua gratidão também àqueles que o ampararam.
O que me espanta é ver a meritocracia ganhar espaço nos corredores do cristianismo, uma crença que deveria estar ancorada na graça. A lógica meritocrática nega a essência da teologia cristã: a salvação não é fruto do mérito — nosso, pelo menos. Ela é graça, um dom imerecido. O mérito, na perspectiva cristã, pertence à justiça de Cristo, àquele que, por sua obra e sacrifício, justificou os indignos.
A meritocracia é a lei da selva travestida de virtude. Ela reduz o outro a um reflexo de sua aparente falta de esforço, ignorando as nuances e injustiças que moldam vidas e histórias. Pior: ela anula a graça do olhar, substituindo misericórdia por julgamento. Seus devotos veem desleixo onde há luta e incapacidade onde há sofrimento.
Abandonar a ilusão meritocrática é, antes de tudo, um ato de humildade. É reconhecer que o sucesso não é apenas fruto de dedicação, mas também de condições que muitas vezes nos escapam — do privilégio à sorte, da ajuda inesperada às mãos que pavimentaram nosso caminho. É perceber que nenhum triunfo é exclusivamente nosso.
A humildade madura que vem com essa compreensão abre os olhos para a fragilidade e a beleza das limitações humanas, tanto as nossas quanto as alheias. E nos ensina que o verdadeiro valor de uma jornada não está na soberba das conquistas, mas na graça de reconhecer o outro e a interdependência que nos sustenta.

