Filosofia na alcova
sobre a filosofia e o cenário educacional
Não, este não é um texto sobre Sade e seus aforismos acerca da natureza humana. Seria até politicamente incorreto admitir a leitura de suas obras. Contudo, a filosofia está lá, tal qual as mulheres descritas em seus textos, ansiando ser “apreciada” — tornar-se objeto de atenção e desejo.
Ao contrário da ideia do Marquês, seu uso não será para o prazer, mas para um mero fim. Frustrante. Se a Filosofia fosse uma mulher que habitasse as academias, certamente estaria na alcova — intocada.
Escrevo um texto romântico? Não. Crio uma tragédia. Esboço um alerta aos companheiros de jornada: retirem a Filosofia da alcova! Ela sempre nos fará reconhecer nossa pequenez. Afugentará a sensação soberba que todo indivíduo mediano adora, a de que está se apropriando de algo.
Lembro que os primeiros semestres na graduação de Direito foram intensos. Eles revelavam o quanto nossa educação média era precária, alimentando uma falsa segurança de que havíamos aprendido um universo de conhecimentos. A academia, no entanto, nos desnuda, ao demonstrar a profundidade que há no conhecimento especializado.
Hoje, pergunto-me até que ponto a academia tem se tornado um reflexo de seus alunos. A relação de troca é sempre dinâmica e transformadora. De um lado, os alunos trazem suas aspirações e experiências de vida, ampliando os horizontes da rigidez da cátedra. Por outro, a cátedra também se torna um produto de suas demandas — sejam elas nobres ou não.
O utilitarismo econômico sufoca a ideia de formação do indivíduo. Já não nos espantamos com as barbáries cometidas no exercício da profissão — falo, especificamente, do campo jurídico. Cada vez mais, os indivíduos são simplesmente instrumentalizados em suas pretensões.
Sinto, caro leitor, que este texto não traz esperança, mas reflexão. A Filosofia continuará na alcova? Creio que sim. Permanecerá lá, esteticamente posta, intocada, ou tocada — levianamente — para o simples prazer daquele que imagina possuí-la.
Não haverá troca, nem relação mútua. Somente para alguns poucos. Aqueles que verdadeiramente a possuírem entenderão que, na realidade, foram tomados por ela. Esses a buscarão constantemente, conscientes de que encontraram não um destino, mas um maravilhoso caminho.

