Fidelidade
Eu não seria imprudente ao dizer que a fidelidade está quase extinta. Ela deixou de ser algo desejável, apreciável, para praticamente se…
Não seria imprudente dizer que a fidelidade está quase extinta. Ela deixou de ser algo desejável, apreciável, para se tornar, aos olhos de muitos, um atributo dos tolos — ou dos apaixonados. Como a paixão, é cada vez mais vista como uma postura transitória, típica dos inícios de relacionamento.
Como se não bastasse, a forma como vivemos parece ser uma ode à infidelidade. As redes sociais criaram uma espécie de infidelidade socialmente aceitável. Que mal há, afinal, em seguir mulheres com quem não tenho relação alguma no Instagram? Não seria exagero condenar curtidas intencionais em fotos sensuais de uma pessoa que sigo?
A Teologia aborda a questão de forma clara: a nudez de cada indivíduo pertence ao seu amado ou à sua amada. Porém, as redes transformaram a sensualidade em caminho para fama, em moeda de troca. No meio desse tiroteio, estão aqueles que ainda possuem alguma intenção de se manterem fiéis.
Millôr Fernandes diria que “o preço da fidelidade é a eterna vigilância” — e nada é mais assertivo do que esse pensamento. Costumo brincar com minha amada, dizendo que um dos maiores teólogos brasileiros foi o dramaturgo Ariano Suassuna, que afirmava, em sua simplicidade: “Ao redor de um buraco, tudo é beirada.”
Perfeito! Esses dois pensamentos, complementares, são norteadores da questão. A fidelidade exige maturidade, prudência e eterna vigilância. Assim como na noção bíblica de tentação, a infidelidade não é evitada apenas pela resistência, mas pela prudência de não se colocar em situações onde ela seja praticamente inevitável.
A maturidade não torna o indivíduo imune às tentações, mas o torna mais consciente de sua própria natureza. Esse autoconhecimento leva ao entendimento de suas limitações, fraquezas e falhas.
A infidelidade está intrinsecamente ligada à insatisfação, inquietude e turbulência. Coincidentemente, essas características traduzem uma das palavras hebraicas para pecado.
O infiel não enxerga beleza em ser o homem de uma só mulher. Ele foi acostumado às glórias da conquista e não compreende que virtude maior reside na constância, na manutenção, na permanência e na firmeza.
Por isso, admiro a noção de amor na cultura judaica. Amor não é apenas algo escrito em um papel; é uma atitude que permeia cada momento da vida.

