Essência
O mestre francês diz que a consciência é uma pequena chama invisível que tremeluz.
O que te define? Essa pergunta tem me perseguido há alguns meses. Isso porque eu não esperava acordar em uma UTI, após ter passado dias em coma devido a um grave atropelamento.
Sempre fui alguém fisicamente ativo, além das atividades intelectuais. Imagine uma pessoa que estava treinando para um duatlo acordar sem a visão do olho esquerdo, sem conseguir mover as pernas e com a informação de que não havia qualquer certeza sobre sua recuperação.
O choque não poderia ter sido maior — principalmente pela forma como me deram as notícias. Meus irmãos me encontraram em minha própria poça de sangue; fui engasgando nele até o hospital. Lidar com o que aconteceu já é devastador, mas enfrentar as sequelas tem sido ainda mais assolador.
Nunca havia refletido sobre o peso da palavra “deficiente” até então. É um termo que carrega uma carga devastadora, como se tentasse me definir. A luta mental mais difícil é compreender que ela não me define — por mais que pareça fazê-lo. Uma verdade dolorosa se impõe: o deficiente é notado por ser insólito. Os desvios em relação ao padrão estético são percebidos, mas não realmente vistos. Não é contraditório afirmar que ele enfrenta uma visibilidade invisível.
Sempre falei aos meus alunos de Antropologia sobre a importância da consciência de si. Por ironia do destino, essa é a temática que mais ocupa meus pensamentos hoje. Voltei aos ensinamentos de um dos maiores metafísicos franceses do século XX, Louis Lavelle.
O mestre francês descreve a consciência como “uma pequena chama invisível que tremeluz. Essa pequena claridade é o que somos. Quando ela decresce, é a nossa existência que cede; quando se apaga, é a nossa existência que cessa.”
Para Lavelle, a consciência é um diálogo. Ele chega a afirmar: “Quando se está a sós, diz-se que está a sós consigo mesmo, o que implica que não se está sozinho, mas a dois. O ato pelo qual nos desdobramos para ter consciência de nós mesmos cria em nós um interlocutor invisível ao qual perguntamos nosso próprio segredo.” Tenho questionado esse interlocutor sobre a minha própria essência.
Então, além das atividades que você realiza, o que te define? Para evitar a objeção de que “definir-se é limitar-se”, reformulo a pergunta: qual é a sua essência? Como anda o seu diálogo com o interlocutor invisível sobre essa questão?

