Espiritualidade coach
“Você está onde está hoje, porque escolheu estar.” Harry Browne
“Você está onde está hoje, porque escolheu estar.” — Harry Browne
Tive contato com a frase acima recentemente. Ela parte de uma estranha hipótese: a do livre-arbítrio irrestrito. De forma imatura e leviana, reduz as condições de vida dos indivíduos às suas escolhas, como se fossem o único determinante para a situação que hoje ocupam.
A afirmativa é um fruto da “lógica” coach, que fatalmente gerou sua própria espiritualidade: um conjunto de valores com os quais os indivíduos conduzem suas jornadas. Trata-se de uma espiritualidade nascida no mundo corporativo, moldada pelo imperativo do sucesso.
A receita é simples e atraente. Se você está em um lugar pouco próspero, a culpa é exclusivamente das suas escolhas. Se prosperou, parabéns pelas ações que o levaram até lá! Dentro dessa lógica, a vida se apresenta como um mecanismo justo e exato, no qual cada indivíduo recebe exatamente o que merece.
Entretanto, duvido que a espiritualidade coach esteja certa. Na maioria das vezes, vejo que os “coaches” são indivíduos que aprenderam técnicas de motivação e oratória, mas que carecem de uma compreensão profunda sobre a natureza, a função e o sentido da linguagem.
Não surpreende, portanto, que afirmativas como a de Browne surjam nesse contexto. Contudo, ele esquece um fato essencial: não somos apenas frutos das nossas decisões, mas também das narrativas que nos construíram. Se você ocupa um lugar considerado paradigmático de sucesso, lembre-se de que seu trajeto não foi construído apenas pelas suas mãos.
Somos, sim, resultado de nossas escolhas, mas também de todas as misericórdias que nos foram estendidas ao longo do caminho. Não se engane, imaginando que o sucesso é exclusivamente fruto do seu esforço. Ao seu redor, certamente há indivíduos que, possivelmente, se dedicaram muito mais do que você, mas que carregam outras narrativas — talvez muito menos misericordiosas que a sua.
Se o seu conhecimento não gera humildade e um senso de compromisso com o próximo, especialmente com aqueles cujas jornadas foram menos afortunadas, então você ainda não foi resgatado de sua ignorância. A frase de Browne, longe de ser um motivo de orgulho para quem a repete com convicção, é apenas um lembrete do quanto ainda falta para o amadurecimento.

