Entre o Parecer e o Padecer
Há uma espécie de catedral detentora de miragens, da qual voluntariamente – e até sem lembrar o motivo – fazemos parte. Curiosamente, essa…
Há uma espécie de catedral repleta de miragens, da qual participamos voluntariamente — e, muitas vezes, sem lembrar o motivo. Curiosamente, essa catedral não inaugura disfunções ou inquietudes; ela apenas as revela. E, ao fazê-lo, expõe algo intrínseco à natureza humana, algo que não se encerra em nossos dias e acompanhará a humanidade como uma sombra acompanha o viajante: a escolha entre ser e parecer.
Essa questão talvez seja melhor ilustrada nas linhas barrocas do dramaturgo espanhol Calderón de la Barca, quando ele afirma:
“Já sei que, se para ser o homem, escolher pudera, ninguém o papel quisera do sofrer e padecer; todos quiseram fazer o de mandar e reger, sem advertir e sem ver que, em ato tão singular, aquilo é representar mesmo ao pensar que é viver.”
Calderón reconhece que, se pudéssemos escolher nossas vidas, todos preferiríamos mandar e reger; ninguém optaria por sofrer e padecer. Contudo, não percebemos que mandar e reger é atuar, representar, enquanto padecer é viver.
A vaidade do mundo repousa no desejo de parecer, de projetar uma importância e um encanto que, para muitos, parecem essenciais. Fazemos quase tudo pela cena, pelo ato que define nossa existência aos olhos dos outros. Desde práticas como aplicar toxina botulínica para parecer jovem e saudável, até experiências cotidianas em redes sociais, onde o ato de postar ganha um status que parece definir o próprio viver.
O homem insiste em fugir da realidade de que ser implica padecer, enquanto parecer é apenas um flerte com a verdade da existência. Ser é aceitar que o tempo passa e que algo nos define para além das rugas. A vida está muito distante de se assemelhar a uma sequência de fotografias impecáveis — pratos, drinks, eventos, ambientes ou corpos milimetricamente estetizados. Conviver está além de postar vídeos curtos, ou afagar o ego com o número de visualizações e curtidas. Essas reações são tão opacas quanto o impulso que nos leva a buscá-las. O cotidiano não é uma sucessão de boas ideias projetadas para gerar boas respostas; ele é, muitas vezes, ordinário, silencioso e desprovido do glamour que tentamos extrair dele.
A necessidade de aparentar revela o vazio que essa atitude tenta ocultar — ou o medo de encarar a existência com suas nuances, de simplesmente ser. Padecer é compreender que a vida possui tons escuros, momentos tristes, e que sua beleza reside em sua simplicidade. Ela não é a vida artística, tampouco a vida comum que almeja sê-lo. Ser não é parecer, porque imitar a arte é imitar o irreal, o imaginário. O ser é distinto do parecer porque possui uma essência que a simetria artística jamais abarcará.
Paradoxalmente, o padecer da vivência oculta uma intensidade que as aparências desconhecem. Uma felicidade que não é determinada pelo olhar do outro — geralmente desconhecido ou distante. Uma segurança estranha aos reflexos que ofuscam e confundem, como aconteceu com Narciso. Uma tranquilidade na solitude que soa absurda para os inquietos. Como no caso do príncipe Hamlet, há um "delírio" — aos olhos dos que habitam a normalidade temporária — que contém uma maturidade inacessível para aqueles que o julgam.

