Ensino e misericórdia
Padecemos diante da ausência de criação de conexão com os alunos, dos avatares frios que contabilizam o número dos que nos ouvem.
Acredito que poucas profissões nos fazem refletir tanto quanto a docência. Quando não é exercida como mero status, torna-se uma jornada que nos despirá mais a cada passo.
Creio que a escolha da maioria dos docentes nasce da influência de seus mestres. Não apenas por suas exposições em sala de aula, ainda que muitas tenham sido indescritivelmente arrebatadoras, mas pelo que eles eram — também — nos corredores da academia.
Posturas assim foram fundamentais em minha jornada. Guardo com carinho os diálogos que tive sobre Filosofia com o amigo professor Sebastião Duarte. Muito me marcou sua paciência em traduzir, em palavras acessíveis, as ideias de um tal Heidegger.
Lembro também das conversas com o amigo professor Isaac Reis, nas quais discutíamos como a fenomenologia poderia ser um caminho para a maturidade da hermenêutica jurídica. Ainda guardo, com zelo, o livro que ele me deu sobre o tema.
E, finalmente, recordo a amiga professora Mônica Sousa, cujo exemplo foi crucial para que eu trilhasse o caminho da docência. Sua presença e a de seu marido me marcaram profundamente, assim como seus conselhos pacientes, que me trouxeram até aqui.
O ponto é: como ocorre em tantas áreas da vida, fazemos o que fazemos porque fomos influenciados por pessoas — e não apenas por ideias. Não foi a ideia de lecionar que me fez chegar até aqui, mas a atenção misericordiosa que recebi nessa jornada.
Confesso que essa motivação é difícil de se recordar nos dias atuais, em meio à crescente mercantilização da educação e à impessoalidade que se intensificou com a pandemia.
Lembro-me de há um ano iniciar uma jornada com duas turmas do primeiro ano de Direito. Era possível perceber em seus olhares não apenas a curiosidade, mas também a empolgação que os conduzia até ali.
Essa empolgação, envolta em certa desconfiança pelo novo mundo que se apresentava, logo cedia diante da relação construída ao longo do semestre. Ainda guardo a lembrança do privilégio que tive, ao lado do meu irmão e professor André Okano, de proferir as primeiras palavras acerca da jornada que eles iniciavam.
Agora, contudo, lidamos com a impessoalidade dos avatares e seus nomes. Tenho alunos que, por ora, são completos desconhecidos para mim. Possivelmente os conhecerei nos próximos semestres, mas, por enquanto, nos falta a proximidade que tanto me marcou no passado.
Os otimistas delirantes dirão que a pandemia trouxe apenas a oportunidade de nos reinventarmos. A educação foi reinventada? Creio que ainda estamos estabelecendo as bases para essa nova forma de ensinar, diante das contingências que nos cercam.
Uma coisa é certa: padecemos com a ausência do fator pessoal. Sofremos com a falta de conexão genuína com os alunos, reduzidos aos avatares frios que apenas contabilizam os que — teoricamente — nos ouvem. Para uma geração habituada a aprender com a impessoalidade de vídeos no YouTube, somos pouco mais que isso.
Ainda assim, diante de toda dificuldade, resta a misericórdia. A mesma misericórdia que recebi em minha graduação. Foi ela que me lembrou meu irmão e professor André Lisboa: a misericórdia que conhecemos em nossos mestres e que hoje somos chamados a demonstrar.
Se há algo que nos diferencia dos alunos, é que, em nós — professores —, deve haver uma misericórdia marcante em tudo o que fazemos.
Nesse ponto, não posso deixar de lembrar uma cena bíblica. Cristo, em sua pequena — e difícil — sala de aula ambulante composta por doze discípulos, demonstrava misericórdia diariamente, mesmo quando eles pareciam não a compreender ou merecer.
Uma cena em especial me vem à mente: pouco antes da última ceia, Cristo toma uma toalha e uma bacia para lavar os pés de seus discípulos. Pedro, sempre impetuoso, protesta, afirmando que o Mestre não deveria realizar tal ato, que era considerado humilhante.
Com uma misericórdia pedagógica, Cristo responde: “O que eu faço você não compreende agora, mas entenderá depois” (João 13.7). Perfeito! Aqui está o nosso princípio, que dialoga diretamente com o que escrevi anteriormente em “A Filosofia na Alcova”.
Entre as muitas formas de manifestar a misericórdia através do ensino, a abordagem de Cristo é a mais marcante. Ele saciava em seus “alunos” a necessidade humana de terminar o dia tendo aprendido algo, mas, ao mesmo tempo, os instigava a continuar buscando aquilo que ainda precisavam compreender.
O mesmo foi feito conosco em nossa jornada acadêmica. Cristo faz isso em nossa vida com Ele. Ele nos comunica verdades que absorvemos inicialmente como neófitos — alimentados com “leite materno”. Contudo, nos conduz progressivamente ao amadurecimento, até que possamos “comer alimento sólido”.
A mesma misericórdia que Cristo nos dedica, como filhos resgatados e aprendizes no ofício de fazer discípulos, é aquela que Ele demanda que demonstremos a todos que forem colocados sob nossos cuidados.

