Eleições e realismo político
A experiência me ensinou que o cotidiano é o grande devorador das idealizações. No campo político, não poderia ser diferente. Sei que o…
A experiência me ensinou que o cotidiano é o grande devorador das idealizações. No campo político, não poderia ser diferente. Sei que o texto que agora inicio soa como uma voz dissonante em relação ao primeiro que escrevi sobre o tema — “A Paz da Cidade”. Mas, por mais paradoxal que pareça, eles tratam de “políticas” distintas.
Falar da essência de algo não é o mesmo que observar a sua realidade. Com a política, isso não poderia ser diferente. Compreender essa distinção é raro, e, para aqueles que conseguem, pesa o fardo de uma visão solitária — frequentemente incompreendida.
É o caso de Nicolau Maquiavel, filósofo italiano do século XVI. Filho de uma família de pequena nobreza, que por gerações serviu à República como funcionários públicos, Maquiavel não nutria paixões pelo campo político, mas o compreendia de maneira interna e realista.
Não à toa, sua obra mais conhecida, O Príncipe (1532), divide opiniões e suscita controvérsias. O livro é um tratado sobre o poder político, ou, como prefiro descrever, sobre o realismo político. Para Maquiavel, o governante — aqui chamado de príncipe — precisa manter-se no poder. Sua postura, acordos, discursos e até mesmo a construção de sua personalidade política devem ser pautados nessa premissa.
A política, para o príncipe, não acontece no vácuo. Ela é exercida na tensão constante de sua sobrevivência. Por isso, Maquiavel argumenta que, no jogo político de sua época, era mais conveniente que o príncipe fosse temido do que amado. Essa postura era essencial, especialmente em tempos nos quais a guerra era uma realidade social inevitável.
Diferente do contexto florentino, e distante da análise racional de Maquiavel, vivemos hoje uma época de eleições, com eleitores alienados de um olhar crítico e candidatos que sabem tirar proveito dessa alienação.
Vivemos tempos de paixões políticas. O debate público se torna acalorado e pouco conciliatório. É comum que, durante campanhas eleitorais, as conversas se inflamem. Alguns preferem evitar o assunto; outros se tornam “pregadores” de seus candidatos, como se neles enxergassem a última chance de transformação social.
Boa parte do povo brasileiro não parece compreender a diferença gritante entre discutir política e discutir a pessoa dos candidatos. Esquecem que a política é, talvez, a mais despudorada morada do poder — uma força bruta que, mesmo quando disfarçada por discursos idealistas, mantém sua natureza.
Como na época de Maquiavel, os candidatos dependem desse poder para sobreviver politicamente. Por isso, é desastroso adentrar o campo político cheio de pulsões e paixões, seja por um partido, seja por um candidato. A paixão distorce a percepção do que a política realmente é.
Ela é o espaço de disputas institucionalizadas pelo poder. A modernidade a configurou como o campo de embates ideológicos, nos quais a rivalidade deveria existir apenas nos discursos e deliberações. Ao final, todos somos indivíduos com aspirações e necessidades reais.
A política é, ou deveria ser, o espaço que reconhece a dignidade do outro — um outro com visões de mundo e modos de vida diferentes, mas igualmente digno de respeito. É a arena onde divergências convivem, compreendendo-se como parte de uma arte imperfeita, protagonizada por atores igualmente imperfeitos.
Na política, não deve residir a fé, mas o ceticismo. Para quem a estuda, essa postura é respaldada pela certeza de sua imperfeição. Embora possa conduzir a caminhos de maior dignidade e equidade, a política também possui o potencial de levar a humanidade a barbáries inimagináveis.
Esse olhar cético é ainda mais justificado no campo teológico. A Escritura nos exorta a “orar e buscar a paz da cidade” (Jeremias 29.7), mas também nos lembra que os governos humanos são previsivelmente cíclicos, e que sua “remissão” virá somente através da “pedra cortada sem o auxílio de mãos humanas” (Daniel 2.45).
Platão, em A República (385–370 a.C.), já identificava que a democracia é presa fácil de discursos messiânicos. Ele descreve como tirano aquele que promete resgatar valores perdidos ou construir uma espécie de Canaã terrena.
Como, então, devemos encarar as eleições? Melhor ainda, como devemos encarar a política? Compreendendo-a pelo que ela é: um campo de disputas imperfeito, de tentativas e erros. A melhor maneira de participar desse cenário é com racionalidade, ceticismo e prudência — fugindo de paixões e posturas fideístas.
Este texto não busca conduzi-lo a nenhuma bandeira política ou candidato. Prezo demais por minha integridade intelectual para isso. Ao contrário, ele foi escrito para relembrar a realidade da política: um campo habitado por bons e maus atores, que podem, através dela, construir cenários melhores — ou piores — do que os que conhecemos. Todos, porém, são tão imperfeitos quanto a própria política.
Precisamos orar pela paz da cidade (Jeremias 29.7), ser sal e luz (Mateus 5.13–16) onde estivermos. Mas não devemos depositar nossa fé na capacidade humana — nossa ou de qualquer outro — de construir o Reino que “existirá para sempre” (Daniel 2.44), aquele que será erigido “sem a intervenção de mãos humanas” (Daniel 2.45).

