E se o que está morrendo somos nós?
A indiferença diante de Gaza como sintoma do colapso humano.
Há um silêncio que não é ausência de som, mas de espanto. Gaza aparece em nossas telas todos os dias: prédios em ruínas, crianças soterradas, mães em pranto. Mas a frequência transformou o insuportável em hábito. A morte repetida virou paisagem. O sangue, que deveria nos cegar, já não nos ofusca. Apenas escorre pelo rodapé do jornal, enquanto seguimos a vida.
Não é que não saibamos. Sabemos demais. E é justamente esse excesso de saber que anestesia. Como se a dor dos outros fosse um espetáculo repetido, no qual já decoramos o roteiro. É o mesmo grito, a mesma bomba, a mesma cratera. A cada repetição, a indignação se torna menos provável. Até que restam apenas olhos que olham — mas não veem.
A pergunta é inevitável: quando foi que o horror deixou de nos horrorizar? E mais ainda: o que isso diz sobre nós? Porque talvez Gaza não seja apenas um território destruído, mas um espelho desconfortável — refletindo a banalização do sofrimento e a falência da nossa própria humanidade.
O olhar anestesiado
A imagem já não nos fere. Susan Sontag lembrava que a fotografia da guerra, quando incessantemente repetida, perde a capacidade de chocar. O que deveria ser ferida moral vira cansaço estético. Gaza é a prova viva disso: a repetição das ruínas e dos corpos transformou o horror em uma rotina de pixels, que percorremos com o mesmo desinteresse com que deslizamos a tela do celular.
Não é a falta de informação que nos paralisa — é o excesso. O espetáculo contínuo da dor produz saturação. A indignação, que deveria crescer, se dissolve na enxurrada de imagens. Como espectadores, aprendemos a “consumir” a dor como parte do fluxo normal das notícias, sem deixar que ela nos corte por dentro. É a morte da empatia por overdose de testemunho.
Sontag advertia: não basta olhar. Ver é um ato moral. Mas nós olhamos sem ver, como quem encara uma vitrine que já não deseja nada. O sofrimento palestino entrou na mesma categoria de um feed sem fim: algo a se rolar para baixo. Não há mais choque, apenas a indiferença morna do hábito.
Essa anestesia é covarde, mas também confortável. Porque sentir de verdade seria insuportável. Seria admitir que não dá para seguir tomando café enquanto crianças são enterradas em escombros. Então preferimos a anestesia — uma cegueira escolhida, um alívio sujo que nos protege da dor dos outros.
E é aqui que se abre o abismo: quando a dor dos outros já não nos atravessa, não é só Gaza que perde. É o nosso olhar que se corrompe. É o humano em nós que se torna incapaz de reagir. A anestesia não protege apenas da dor — protege da consciência.
A memória que falha
Diante do Holocausto, aprendemos a repetir um lema: “nunca mais”. Mas, como lembra Amos Goldberg, o trauma não é um evento que se encerra no passado. Ele ocupa o espaço, o tempo, o corpo inteiro de quem o viveu. É uma ferida que não cicatriza, que busca se fixar em palavras e testemunhos para que não desapareça. O diário, a memória, a narrativa — tudo se torna monumento vivo contra o esquecimento.
O problema é que transformamos essa memória em ritual seletivo. Dizemos “nunca mais” como se fosse “nunca mais… para alguns”. Guardamos museus, discursos oficiais, cerimônias de luto, mas fechamos os olhos para outros corpos sendo esmagados, agora, diante de nós. É como se o horror do passado fosse digno de memória, mas o horror do presente fosse apenas estatística.
Goldberg mostra que o testemunho nasce justamente do silêncio forçado, da impotência diante da violência. E é por isso que ele exige ser ouvido. Mas nós aprendemos a ignorar testemunhos incômodos. A palavra palestina, a narrativa da mãe que perde o filho, a voz que denuncia o genocídio de hoje — tudo isso é abafado por debates sobre fronteiras, terrorismo ou geopolítica. O testemunho é silenciado antes mesmo de ser escutado.
A memória, que deveria nos mobilizar, virou anestesia. O Holocausto foi transformado em ícone distante, sem capacidade de nos constranger no presente. O lema “nunca mais” foi capturado como patrimônio de alguns, quando deveria ser uma convocação universal contra qualquer barbárie. Gaza expõe essa falha: não aprendemos nada se não conseguimos reconhecer a repetição do horror.
Porque, no fundo, a memória só vale se nos transforma. Quando a usamos para justificar nossa seletividade moral, ela apodrece. E é isso que acontece hoje: a memória do Holocausto se petrifica em monumentos enquanto a sua lição viva — não aceitar o genocídio — é traída diante de nossos olhos.
Gaza como espelho
É preciso dizer com clareza: este não é um texto sobre política partidária, nem sobre alinhamento ideológico. Não é um texto que ignora o fato de que o Hamas é um grupo terrorista. Esses debates existem e têm seu lugar. Mas o que está em jogo aqui é outra coisa: é o horror que se repete, é o genocídio que se normaliza, é a nossa capacidade de olhar para isso e não sangrar por dentro.
Porque a pergunta central não é “quem tem razão” — a pergunta é: quem está morrendo? E a resposta é brutal em sua simplicidade: gente comum. Crianças, mães, velhos, homens que jamais pegaram em armas. Quando a política ocupa o lugar da compaixão, nós nos tornamos cúmplices de uma lógica perversa em que cada corpo é apenas um número em uma contagem que nunca para.
Gaza, nesse sentido, é mais do que território. É um espelho que nos devolve o rosto da indiferença. Cada vez que vemos a imagem de uma cidade em ruínas e seguimos rolando a tela como se fosse só mais uma notícia, nos treinamos a não sentir. E essa insensibilidade não para em Gaza: ela se espalha para as periferias, para as prisões, para os hospitais lotados. Onde quer que haja sofrimento, nós já aprendemos a não escutar.
Esse é o verdadeiro campo de concentração da modernidade: não o de arame farpado, mas o do coração embotado. Quando deixamos de nos horrorizar, a barbárie já venceu dentro de nós. O genocídio não é apenas o massacre físico de um povo; é também o processo de normalização, de acomodação, de indiferença que corrói a própria ideia de humanidade.
E é por isso que Gaza não fala apenas da Palestina. Fala de nós. Fala do que nos tornamos quando escolhemos o conforto da anestesia em vez da dor da solidariedade. Fala de uma humanidade que se acostumou com o inaceitável. E se a dor dos outros não nos arranca mais da rotina, talvez sejamos nós os verdadeiros mortos-vivos da história.
E se o que está morrendo somos nós?
A cada morte ignorada, a cada imagem deslizada para baixo, a cada justificativa que nos impede de sentir, algo dentro de nós também se deteriora. Não é só Gaza que sangra. Somos nós que vamos nos tornando incapazes de nos doer, incapazes de nos indignar, incapazes de ser humanos.
Chamamos isso de realismo político, de complexidade geopolítica, de maturidade. Mas, na prática, é covardia moral. É o medo de encarar o horror sem desculpas, de reconhecer a barbárie sem notas de rodapé. E, ao escolhermos esse caminho, damos à morte não apenas corpos palestinos, mas a própria ideia de humanidade que deveria nos unir.
Se o horror já não nos horroriza, se a dor já não nos corta, se o sangue já não nos constrange, então talvez Gaza não seja apenas um lugar distante em ruínas. Talvez Gaza seja a revelação mais brutal de quem realmente somos — espectadores anestesiados de um mundo em colapso.
E a pergunta que resta, sem anestesia possível, é esta: até quando aceitaremos viver como se o genocídio fosse apenas parte do cenário?
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