Dor e maturidade
Na grande maioria das vezes, não definimos com muita liberdade o cenário da nossa vida, mas decidimos quem seremos diante dele.
Definir a dor é difícil. Na verdade, conceituar a realidade das sensações é uma tarefa complexa. Dos estoicos a Schopenhauer, há inúmeras formulações sobre a dor — e sobre como podemos lidar com ela.
Para mim, a dor pertence àquelas janelas da vida que só compreende com maior precisão quem a experimenta e reflete sobre ela.
Respeito Kant, mas não acredito que a dor possa ser diminuída pelo uso da razão. Estou mais próximo de Schopenhauer, considerando a dor como um código revelador da existência. Vendo-a assim, não pretendo justificar uma espécie de autocomiseração. Pelo contrário, quero estabelecer uma tese antifrágil.
A dor é um dos caminhos para o amadurecimento. A facilidade gera pessoas fracas e indisciplinadas. A dor, por sua vez, destrói, enraíza, molda e edifica — para o bem ou para o mal.
A dor é como um processo, um caminho. Ela pode ser a mais eficaz e paciente das professoras. É capaz de amadurecer e sensibilizar, conceder força e ternura. Contudo, é uma mestra frequentemente injustiçada.
Permita-me colocar a questão desta forma: a dor é o caminho incompreendido para muitas das coisas que pedimos — desejos bons, que nos tragam prosperidade.
Muitas pessoas pedem a Deus que as tornem mais fortes, mas reclamam quando Sua Soberania as conduz a vales escuros, que as erguerão como indivíduos transformados. Alguns clamam para que suas famílias sejam mais amorosas e próximas, mas desperdiçam os dias cinzentos que poderiam proporcionar isso.
Outros suplicam por maturidade, mas se queixam quando são desafiados a superar quem são — quando a dor os alcança para que isso aconteça. Por fim, muitos pedem por vidas melhores, esquecendo que elas não simplesmente caem do céu, mas nascem das molduras mais contraditórias da existência.
Talvez a melhor atitude seja abraçar a dor diante de você, deixando que ela o conduza por seus caminhos engrandecedores. Encarar a dor como uma oportunidade! Foi essa atitude que decidi tomar nos meus primeiros dias em um leito de UTI, enfrentando uma jornada desconhecida à minha frente.
Na maioria das vezes, não temos liberdade para definir o cenário de nossas vidas, mas decidimos quem seremos diante dele.

