Dor
O que fazer? Murmurar? Espraguejar? Habitar a morada da autocomiseração? Todas as opções parecem extremamente tentadoras.
Conheci os livros de Philip Yancey quando tinha 14 anos. Entre os títulos que me cativaram, estava A Dádiva da Dor, escrito em colaboração com Paul Brand, um médico especialista em dor humana. A obra vai além de reconhecer a inevitabilidade da dor; ela a aborda como uma dádiva divina.
Contudo, há coerência em tal posicionamento? Lembro que, próximo da minha casa em São Luís, havia uma igreja com uma placa que dizia: “Pare de sofrer.” No mercado de commodities teológicas, essa é a mensagem mais vendida. E isso não é exclusivo da nossa época. Durante séculos, a dor e o sofrimento foram vistos como punições reservadas aos pecadores mais vis.
Imagino como seria se minha cosmovisão fosse moldada por essa perspectiva. Posso afirmar que, até o momento, não vivi outra experiência na qual a dor fosse uma companheira tão constante. Lembro-me de dias no hospital em que ela era tão intensa que meu corpo inteiro tremia, reagindo a algo que parecia ultrapassar os limites da resistência humana.
Desde pequeno, fui ensinado a enfrentar meus problemas sem baixar a cabeça ou demonstrar fraqueza — uma lição que foi duramente testada nos meses que passei no hospital. Como se isso não bastasse, descobri que o processo de reabilitação é todo sustentado em algo: dor.
Ela é a companheira de qualquer progresso que se almeja. Não há como trilhar o caminho da reabilitação sem sentir a dor, sem abraçá-la. Fugir dela é abandonar qualquer possibilidade de reconquistar a vida que antes era sua — ou pelo menos algo próximo dela.
E então, o que fazer? Murmurar? Praguejar? Habitar a morada da autocomiseração? Todas essas opções parecem tentadoras quando a dor domina cada um dos seus dias.
Acaso, castigo, sadismo do destino ou dádiva? Como você encara a dor? O quanto ela tem sido sua companheira de jornada? Como você tem agido diante dela?
P.S.: Sobre essa temática, pretendo escrever uma série de textos. Por isso, permito-me encerrar aqui, com esta primeira imersão.

