Critiquei o governo, sou de esquerda?
Criticar tornou-se altamente ofensivo. Isto não somente na vida política, mas também na vida cotidiana .
Criticar tornou-se uma prática altamente ofensiva. Isso se aplica não apenas à vida política, mas também à vida cotidiana — talvez um tema para outro texto. Na política, que cada vez mais se confunde com o âmbito pessoal, a polarização ocupou o espaço antes destinado à razoabilidade.
De forma geral, criticar o governo tornou-se sinônimo de ser “de esquerda”. Pasme: até mesmo na academia, o diálogo político tornou-se árduo. Cada vez mais lido com alunos que demonstram uma fidelidade quase canina a seus políticos de estimação.
Uso o termo “predileção” por um motivo claro. Sempre que leciono disciplinas que tangenciam questões políticas, inicio com o mesmo discurso: aqueles que decidirem trilhar o caminho da Teoria do Direito, ou seja, tornarem-se juristas, precisam compreender que a predileção corrompe o bom juízo.
Mais do que isso, a predileção política revelou-se um engodo até mesmo para os laços familiares, como ficou evidente nas últimas eleições. Por essa razão, digo aos meus alunos que sempre agirei como o “advogado do diabo”, recusando alimentar predileções por “qualquer dos lados”, a fim de preservar meu juízo livre no momento da análise. Creio que essa deveria ser a postura de todos que decidem lidar com a Teoria do Direito.
Eis outro ponto que merece reflexão. Cresci em uma época que tinha como lógica o seguinte: podemos eleger um presidente, mas, tão logo ele seja eleito, tornamo-nos oposição. Essa lógica possui uma sólida fundamentação, especialmente à luz da Teoria do Estado.
Até mesmo a Teologia reforça a ideia de que nenhum governo ou indivíduo será o messias dos problemas sociais e políticos (vide Daniel 7 e 8). Esse pensamento, profundamente arraigado em meu juízo, moldou minha perspectiva. Talvez por isso eu veja com tanta estranheza o fato de muitos religiosos demonstrarem mais fidelidade a um político específico do que ao próprio Messias que professam seguir.
Por fim, vale lembrar que a política é, antes de tudo, a arte do possível — algo que, ao que parece, foi esquecido. Ela não deveria acalentar aspirações utópicas ou ideológicas sob o risco de perder completamente o foco na realidade.
Posso afirmar que este texto inaugura uma série de reflexões sobre a atualidade da política brasileira.

