Coloque-se no seu lugar
O final de 2023 nos deu uma lição: um retrato do que podemos estar sendo, o exemplo daquilo que — como humanos — nunca deveríamos ser.
Imagine a cena. Uma senhora, trabalhadora da limpeza de um shopping, é designada para retirar uma mancha do piso. A sujeira é grande, e, para removê-la, ela precisa deixar o chão ensopado. Como parte de seu trabalho, sinaliza a área com um aviso de risco de queda.
Em sua direção, uma adolescente corre, calçando sandálias rasteiras. Preocupada com a possibilidade de um acidente, a senhora a alerta: com educação, segundo seu relato. A adolescente ignora o aviso e segue para junto da tia.
Agora, a tia assume o papel de protagonista — ou de antagonista. Revoltada com o ocorrido, começa a gritar: “Você não passa de uma faxineira analfabeta!” E não para por aí: “Eu sou rica e estou de férias, você está no lugar certo que é seu!” Antes de sair, conclui com desdém: “Coloque-se no seu lugar, palhaça.”
Infelizmente, a cena não é hipotética. Aconteceu na tarde de quarta-feira, 27 de dezembro, em um shopping em Ipatinga, interior de Minas Gerais. Até o momento em que escrevo, a mulher não foi identificada. Sabe-se que o carro que dirigia tinha placa do interior de São Paulo — mas essa informação ainda carece de confirmação. A única certeza é a onda de indignação que suas palavras provocaram nas redes sociais.
A atitude dela foi desprezível. Expressou o indizível, materializou o que deveria ser impossível, encenou o impraticável. Ainda assim, pergunto-me: estaria ela de mãos dadas com outros, ao menos em pensamento?
Não me refiro àqueles que verbalizam tão abertamente seu desprezo — por Deus, não! O instinto de preservação, amplificado pelo medo de ser “cancelado”, é um escudo poderoso. Mas e os que, mesmo calados, pensam o mesmo?
Acreditar que sua formação acadêmica torna o outro menos digno. Delirar que a posse de certa quantia de dinheiro autoriza tratar alguém como descartável. Imaginar que quem trabalha em serviços está condenado à servidão. Fantasiar que sua confissão religiosa o coloca em um patamar superior ao próximo. E, em um tom mais atual, idealizar que sua ideologia política confere licença para desumanizar adversários — ou até mesmo cogitar sua eliminação.
O final de 2023 nos trouxe uma lição dura. Um espelho que nos reflete como podemos ser, mas jamais deveríamos ser. Um alerta de que, como seres humanos, precisamos reconhecer e repudiar essas manifestações de ódio e arrogância antes que se tornem nosso retrato.

