Catedral das Miragens
Um dos locais que gosto de visitar quando estou em São Paulo, é a Catedral da Sé. Faço questão de vê-lá, não somente pelo valor…
Um dos lugares que sempre visito em São Paulo é a Catedral da Sé. Não apenas por sua grandiosidade arquitetônica — afinal, ela está entre os cinco maiores templos neogóticos do mundo —, mas também pelo efeito singular que sua arquitetura provoca em quem a contempla. O neogótico marca o fim de uma estética medieval dominada pelo pavor do Apocalipse. Surge, então, uma arte que se impõe com luminosidade e verticalidade, erguendo-se para o alto como um convite a olharmos para o divino. As igrejas dessa época não apenas impressionam, mas orientam: suas torres altíssimas aspiram alcançar o céu, enquanto os vitrais multicoloridos, filtrando a luz em tonalidades vibrantes, evocam a presença divina.
Tudo ali existe para suscitar uma sensação específica. Ao adentrar uma catedral, é difícil não ser tomado pela intimidação quase cerimonial que a presença das imagens, santos e anjos provoca. Esses olhares onipresentes parecem acompanhar cada movimento seu, como se houvesse algo de profundamente pessoal naquele espaço vasto e imponente. É impossível não sentir o peso da pequenez humana, confrontada com a magnitude do sagrado.
Entretanto, e se pensássemos em uma catedral na qual todos estamos inevitavelmente inseridos? Não uma obra de pedra e vitrais, mas uma construção imaterial: nossa época e suas inquietudes. Compreender nosso tempo é, como diria Schopenhauer, reconhecer a manifestação de nossas vontades. Ou, talvez, seguindo Freud, é enfrentar os “demônios” que habitam nossas motivações mais profundas — forças não religiosas, mas submersas, movendo-se em silêncio sob os gestos e escolhas que moldam o mundo ao nosso redor.
Por que chamá-la de catedral? Porque, como bem observa Russell Kirk, vivemos em uma era em que ideologias e, por vezes, até utopias, se transformaram em religiões invertidas. Herdeiros do fanatismo que já contaminou a fé religiosa, aplicamos agora essa "crença" a preocupações seculares. Nossa catedral contemporânea divide-se entre ideologias, aspirações utópicas e motivações estéticas. É um espaço onde crenças vorazes e irrefletidas nos conduzem para um "lugar nenhum", uma terra de promessas ilusórias, ao mesmo tempo que um ideal de vida "artística" sufoca a beleza inerente ao natural e ao simples.
Como em qualquer catedral, essa estrutura nos reduz à insignificância. Porém, aqui, ela não nos conduz ao divino, mas a um emaranhado de miragens. Dentro dela, somos cercados por vultos e sons, espaços que seduzem pela aparência, mas jamais saciam o que prometem. Buscamos incessantemente por algo que nunca encontraremos, perseguimos uma felicidade que, ironicamente, sempre escapa quando tentamos agarrá-la.
Falar da Catedral das Miragens é narrar um destino comum. Não estar em sua órbita parece inviável. No entanto, resistir ao fascínio de suas ilusões, identificando-as e compreendendo-as, é um exercício de maturidade. É um lampejo de clareza que buscamos a cada passo consciente, enquanto avançamos entre as sombras desse templo que nos habita e nos confunde.

