A vida que já temos
Viver é algo que não possui fórmulas prontas. O cotidiano sempre conduzirá qualquer indivíduo a refletir e sopesar questões que não são da…
Viver não é algo que possua fórmulas prontas. O cotidiano conduz inevitavelmente o indivíduo a refletir e sopesar questões que transcendem o simples. Não se trata apenas de eventos pontuais que chamam atenção; envolve práticas nas quais estamos imersos desde cedo. Um exemplo evidente é como dividimos o viver entre o hoje e o amanhã, entre aquilo que fazemos pensando no instante presente e aquilo que projetamos para os dias que virão.
Pensar essa temática é, inevitavelmente, recordar um livro marcante que li há alguns anos: O valor do amanhã. Nele, Eduardo Giannetti, filósofo e economista, propõe reflexões que ultrapassam questões puramente econômicas. Ele nos desafia com perguntas fundamentais: viver o dia sem se preocupar com o amanhã ou moldar cada momento pensando no futuro? Renunciar ao prazer imediato em nome de algo maior que está por vir ou aproveitar intensamente o presente, mesmo às custas do que virá? Viver agora e pagar depois, ou pagar agora para viver depois?
Escolhas nos convocam diariamente. Mas qual o peso que devemos atribuir ao futuro em relação ao momento presente? É melhor colocar “mais vida em nossos anos” ou “mais anos em nossas vidas”? Como agir quando crescemos acostumados a adiar o viver para um amanhã idealizado? Quando a felicidade se esconde atrás de objetivos ou conquistas futuras, como um “pote de ouro ao final do arco-íris”? Quando o ato de esperar se naturaliza como um hábito arraigado, desprovido de razões claras?
Parece que nosso impulso por complexificar a vida — empregos que exigem qualificações cada vez mais altas, jornadas acadêmicas infindáveis, imóveis a preços estratosféricos — transforma o ato de viver em algo que sempre fica para depois. Amamos romances arrebatadores, pois são o máximo de amor que nossas rotinas extenuantes nos permitem contemplar. Valorizamos momentos de intenso extravasamento porque nossos dias carecem de vivência e sentido.
Projetar o viver para um futuro tardio esvazia a intensidade e a beleza que o hoje pode oferecer.
Não, a ideia aqui não é abraçar irracionalmente o carpe diem como mantra absoluto, como se o amanhã fosse uma ilusão descartável. Essa abordagem, paradoxalmente, gera frustrações futuras, quando se encontra sentido na vida, mas a vivência que o aguardava foi desperdiçada. Despertar para a vida que já temos não significa renunciar à esperança de páginas novas e melhores. Pelo contrário, é abraçar o presente com gratidão — reconhecer a beleza do que hoje é vivido e, assim, encontrar um deslumbramento que apenas o aqui e agora pode proporcionar.

