A sandália e o chão comum
O que a sarça ardente ensina sobre argumentar
Uma roda de conversa se forma, como tantas outras se formam, em torno de um tema que aos poucos esquenta as vozes. No começo todos parecem falar da mesma coisa. Aos poucos, porém, é possível perceber que ali as pessoas dialogam a partir de lugares diferentes, e que a diferença não está exatamente no que cada uma pensa, mas na postura com que cada uma se aproxima da questão em jogo. Um mesmo problema pode ser tratado por quem tenta compreendê-lo e por quem apenas o usa como pretexto, e essa distinção raramente aparece no conteúdo do que cada um diz. Aparece, sobretudo, na relação que cada um estabelece com a fala do outro.
Há quem, diante da questão que ali está posta, tente de fato entendê-la: o problema em si, a tensão que ele revela, aquilo que nele resiste a qualquer resposta fácil, independente de quem o formula. E há quem, sob a aparência de estar interpretando essa mesma questão, na verdade apenas faça reverberar a própria experiência, a própria visão de mundo, a própria opinião, tratando esse eco de si mesmo como se, por ser sincero, já fosse uma interpretação legítima do que está em jogo. O primeiro segura sua opinião com mãos leves, como quem sabe que ela pode estar incompleta diante de algo maior do que a questão coloca. O segundo fala de cima, com a segurança tranquila de quem já resolveu o assunto antes mesmo de a conversa começar, e trata cada resposta alheia não como parte de um trabalho comum de pensar, mas como ocasião para falar de si de novo, com outras palavras.
O que separa essas duas posturas não é inteligência, nem preparo, nem mesmo educação no sentido mais corriqueiro da palavra. É algo mais antigo, que a tradição hebraica já havia flagrado muito antes de qualquer teoria da argumentação existir. No livro do Êxodo, um pastor chamado Moisés vê, ao pé do monte Horeb, uma sarça que arde sem se consumir. Aproxima-se para entender o fenômeno, movido pela curiosidade comum de quem quer verificar algo estranho. E antes de qualquer palavra sobre o futuro do seu povo, a primeira ordem que recebe é: tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.
Antes de seguir, uma ressalva precisa ficar clara: essa cena não interessa aqui como episódio de fé nem como argumento sobre a existência ou a natureza de Deus. Interessa como peça de literatura hebraica, e o que nela importa é a estrutura da linguagem que ali opera, não a teologia que a sustenta. A frase de Yahweh a Moisés não descreve um fato que já existia antes de ser dito. Ela institui esse fato pelo próprio ato de dizer: antes da fala, aquele pedaço de terra era indistinguível de qualquer outro pedaço de deserto ao redor da sarça; depois da fala, e só depois dela, o chão se torna sagrado. É esse mecanismo, mais do que o conteúdo religioso da cena, que interessa a um ensaio sobre a linguagem do debate: a possibilidade de que uma fala não apenas descreva um território, mas o constitua como tal, mudando de uma vez a natureza do chão e a responsabilidade de quem nele pisa.
É tentador ler a ordem dada a Moisés como um protocolo de reverência diante do sobrenatural, o equivalente hebraico de tirar o chapéu diante de algo maior. Mas o gesto exigido dele é mais específico do que reverência genérica, e essa especificidade é o que interessa a quem pensa hoje sobre o modo como as pessoas discutem ideias. A sandália é o que separa o pé do chão. É a camada que permite pisar sem sentir que o chão pisado é da mesma matéria de quem pisa. Tirá-la é abolir essa distância: reconhecer que aquele solo, por mais sagrado que seja, é feito do mesmo pó do qual o próprio Moisés foi feito. Não há ali um sujeito soberano diante de um objeto a conquistar. Há duas naturezas de pó diante uma da outra, uma delas revestida de um fogo que não a consome, e a primeira coisa a fazer, antes de qualquer missão, é lembrar disso.
É essa lembrança que falta a quem fala de cima na roda de conversa, e falta também boa parte daquilo que hoje se chama de debate público. Quando alguém discute sem tirar a sandália, o que está em jogo não é falta de educação nem falta de argumentos. É a suposição, quase sempre inconsciente, de que o terreno da discussão lhe pertence. A ideia debatida deixa de ser objeto de investigação comum e vira extensão do próprio corpo de quem a defende. Discordar dela já não é ato lógico, é agressão territorial. E é aqui que a política contemporânea da difamação encontra sua explicação mais simples: já não é a tese que está em jogo, é a honra, porque ninguém mais reconhece um chão que seja de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Quando esse chão desaparece, tudo o que resta é gente pisando em gente, cada um convencido de que o outro invadiu seu quintal.
Há um nome antigo para essa incapacidade de suportar que o mundo, e o outro, não pertençam a nós. Chama-se ressentimento, e sua descrição mais precisa ainda é a de Nietzsche: o ressentido é aquele que não tolera a indiferença do universo aos seus desejos, nem a diferença irredutível entre ele e os demais. O que caracteriza esse afeto não é a discordância em si, mas a convicção secreta de que o mundo lhe deve alguma coisa: reconhecimento, razão, vitória. Por isso o debate ressentido nunca termina numa síntese, por mais provisória que seja. Termina numa cobrança. Alguém deve pagar por ter discordado. E o que deveria ser um encontro entre duas inteligências finitas diante de um problema que as excede vira um acerto de contas entre credores.
Louis Lavelle escreveu, num registro bem distante da linguagem contemporânea da polarização, a frase que talvez resuma com mais economia tudo isso: somente a humildade é capaz de nos ligar ao solo onde nos enraizamos. O orgulho, diz ele, faz do eu o centro do mundo e eleva ao infinito essa pequena parcela do real que ele de fato ocupa. Há algo exato nessa imagem. O orgulhoso não erra em ocupar um lugar no mundo, ninguém pode deixar de ocupá-lo. Erra em multiplicar esse lugar até que ele pareça o mundo inteiro. É precisamente o que acontece a quem discute ideias sem nunca suspeitar de que o chão sob seus pés continua sendo, também, chão do outro. A humildade de que fala Lavelle não é autoflagelo, não é apagar-se diante do adversário. É o oposto de um apagamento: é a descoberta de que só existe medida certa de si na admissão de que essa medida não cobre tudo.
Ainda assim, uma objeção espera para ser feita, e seria desonesto adiá-la até o fim do texto como se não incomodasse. Não seria esse elogio da humildade apenas uma forma sofisticada de pedir que as pessoas se calem, suavizem suas convicções, evitem o atrito que toda ideia forte necessariamente provoca? A história está cheia de vozes que só conseguiram dizer algo relevante porque recusaram exatamente esse tipo de comedimento: profetas, hereges, filósofos que confrontaram seus contemporâneos com uma convicção que nenhuma prudência teria autorizado. Pedir que todos tirem a sandália antes de discordar pode ser, na prática, uma receita para o pensamento morno, para o debate sem risco. E há um problema ainda mais incômodo. Quem exige que o outro tire a sandália, ao fazer essa exigência, já não está ele mesmo ocupando a posição de juiz de quem calçou ou descalçou o pé, recalçando no próprio ato de cobrar a sandália que fingia ter tirado?
A resposta a essa objeção não pode ser retórica, precisa ser conceitual, e ela está, curiosamente, escondida no próprio Nietzsche, não no da genealogia do ressentimento, mas no dos aforismos mais secos. As convicções, escreveu ele em Humano, Demasiado Humano, são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. A frase corta a objeção ao meio, porque revela uma diferença categórica entre ter uma posição forte e ser prisioneiro dela. Quem mente sabe, em algum lugar de si, que está mentindo, e guarda ainda alguma relação com o que seria verdadeiro. Quem se converteu na própria convicção perdeu até essa relação: já não defende uma ideia, é possuído por ela, e qualquer discordância se torna, nesse regime, uma ameaça existencial. É esse o verdadeiro alvo da crítica, não a força da posição, mas a idolatria de si disfarçada de posição. Tirar a sandália não significa abrandar o que se afirma. Significa lembrar que aquilo que se afirma não é o próprio afirmante, e que a tese pode ser defendida com toda a força necessária sem que o eu de quem a defende esteja em jogo a cada réplica.
É aqui que a cena bíblica devolve a resposta mais precisa à objeção, porque Moisés não sai da sarça amansado. Tira a sandália, recebe a missão e, no capítulo seguinte, já está diante do Faraó com uma insolência que nenhum diplomata recomendaria: exige a libertação de um povo inteiro do homem mais poderoso do mundo conhecido, sem amaciar o discurso, sem pedir licença para discordar do poder estabelecido. A humildade da sarça não o tornou tímido. Autorizou-o a falar com uma força que, minutos antes, ele mesmo alegava não ter, ao tentar escapar da missão sob o pretexto da própria gagueira. A humildade ontológica, saber-se pó diante de algo maior, não é o oposto da convicção forte. É a única coisa capaz de distinguir convicção forte de vaidade travestida de convicção. Quem sabe que fala em nome de algo que o excede pode dizer coisas duras sem medo de que a discordância o destrua, porque já não é ele mesmo, e sim a verdade em jogo, o que está sendo defendido. Quem não tirou a sandália, mesmo quando fala com aparente firmeza, está sempre defendendo, no fundo, a si mesmo, e por isso reage a toda objeção como quem reage a um ataque pessoal.
Simone Weil chamou de atenção essa capacidade rara de deixar de ser o centro da própria observação, de olhar algo (uma ideia, um texto, um rosto) sem primeiro perguntar o que aquilo faz por nós ou contra nós. Ela via nisso quase uma forma de oração, um esvaziamento que não é ausência, mas disponibilidade total para que o que está diante seja visto como realmente é, e não como espelho das próprias urgências. Há algo dessa mesma disponibilidade no gesto de Moisés diante da sarça. Ele não vai até ali para confirmar o que já pensa, vai para ver, e só depois de ver, descalço, recebe a missão. O debate contemporâneo, na maior parte das vezes, inverte essa ordem: quem entra na conversa já chega convertido, já blindado, e o que busca não é ver o que está ali, mas confirmar, o mais rápido possível, que o outro está errado e que o eu permanece intacto.
Talvez seja possível formular a questão de outro modo, menos moralista e mais filosófico: o que caracteriza um pensador, e não um mero disputante de posições, não é a ausência de convicção, é a capacidade de sustentar convicções fortes sem que elas se confundam com o próprio corpo. É essa distinção que separa quem discute ideias de quem discute a si mesmo usando ideias como pretexto. Essa distinção não vem de regras de civilidade, nem de protocolos de debate saudável, nem das cartilhas de boa convivência que hoje inflacionam redes sociais e universidades sem tocar no problema real. Vem, quando muito, de um gesto: o mesmo que Moisés recebeu antes de qualquer palavra, antes de qualquer missão, antes mesmo de saber o que aquele fogo significava.
Fica então uma pergunta que nenhuma teoria da argumentação resolve sozinha, e que talvez seja mais útil sem resposta do que com uma. Naquela roda de conversa, e em tantas outras que se repetem todos os dias, quantos pés continuaram calçados sem que ninguém percebesse, e o que teria mudado, não no argumento, mas na disposição para ouvir o que vinha do outro lado, se antes de qualquer palavra alguém tivesse simplesmente parado, e tirado a sandália.

