A primazia da pergunta
Gadamer também aponta, como traço fundamental de um exercício hermenêutico, a primazia da pergunta. Na medida que a forma, intento e…
Gadamer também aponta, como traço fundamental de um exercício hermenêutico, a primazia da pergunta. Na medida que a forma, intento e frequência que esta será feita, no escopo de um processo dialético, determinará — ou não — a relação entre o questionado, o perguntado e o interrogado. Sendo a primazia da pergunta hermenêutica destinado a analisar o último, ou seja, o interrogado.
Até então o discorrer dos traços fundamentais hermenêuticos apontam para a relação entre aquele que interroga e a quem se interroga, seja texto, objeto de conhecimento ou ser. Contudo, o que se interroga ou a forma que se interroga é processo fundamental para o desvelamento do que se pretende apreender. Bem mais que obter as conclusões corretas, fazer os questionamentos certos desponta como premissa fundamental.
Essa determinante experiência hermenêutica baseia-se na fundamentação do “saber que não sabe” [1], ao mesmo tempo que este “não saber” se apresenta de forma sábia e sistemática. Dessa forma, toda pergunta deve possuir um sentido, não sendo este com o propósito de formar um diálogo sofista para que a visão, compreensão e posicionamento prévio sejam fixados como corretos.
O sentido do questionar deve estar intrinsecamente ligado com o desvelar. Esse deve ser o sentido de orientação fundamentada de todo questionamento feito. Feito com esse intento, o interrogado é posto sob a perspectiva daquele que deseja compreender e desvelar o fenômeno ou texto.
O filósofo ressalta que “na fala, quem só procura ter razão, sem se preocupar com o discernimento do assunto em questão, irá achar que é mais fácil perguntar do que responder” [2]. Contudo, encarar desta perspectiva, implica que este não perceba que esse movimento dialético-hermenêutico de fazer com que a norma ou princípio, como proposto no campo jurídico, “fale” mais claramente, à medida que a pergunta formulada seja mais clara e precisa, permitindo ao intérprete o moldar da sua “carga prévia” ante o assunto. Dessa forma, fazendo com que este se revele.
No que concerne à hermenêutica filosófica, esta versa acerca de uma dialética permeada pela curiosidade e busca pela verdade posta pela sabedoria socrática, que é recuperada por Gadamer através da primazia da pergunta. A compreensão abre o caminho para a articulação do conhecimento, que só pode ocorrer com a pergunta sabiamente posta. Esta estabelecerá limites para ambos os posicionamentos, quer proceder favorável ou para o posicionar desfavorável. Seu delimitar será proporcional a tantas quantas possibilidades haja no analisar da questão posta. Esta “chama-se dialética porque é a arte de conduzir uma autêntica conversação” [3].
A pergunta será indicativo de sentido, coerência, caminho, abertura e possibilidades. Movendo aquele questionamento para o gerar de enfrentamento, questionando, retirando a pacificação da verdade outrora conhecida em inércia e rompe com a massificação. A pergunta move o diálogo e este transforma o intérprete. A pergunta lança os interlocutores no aberto, permitindo o reconhecimento dos limites que envolvem a questão. A tese demonstra que esses limites podem ser reconhecidos no assumir da postura ética do diálogo hermenêutico.
Dado o diálogo, o intérprete já não é o que outrora fora. Nesta perspectiva, cabe destacar que, no processo do diálogo, “qualquer que seja seu desenlace, não é senão o desenvolver de uma comunidade originária, da qual os interlocutores não eram, ao começo, suficientemente conscientes” [4].
[1] GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 473.
[2] GADAMER, Hans-Georg. Op. Cit., p.474.
[3] GADAMER, Hans-Georg. Op. Cit., p. 479.
[4] GUTIÉRREZ ALEMÁN, Carlos Bernardo. Temas de Filosofía Hermenéutica: conferencias y ensayos. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2002.

