A pedagogia da submissão
o caso de Gisele Alves Santana e a violência que começa na linguagem
Demorei para escrever sobre isso. E não foi por falta de opinião. Foi por excesso de consciência do peso. Há temas que não se deixam tocar com pressa sem que a própria escrita se torne cúmplice daquilo que pretende denunciar.
Sou filho de uma mulher que amo. Sou casado com uma mulher que é a minha vida. Caminho ao lado de mulheres que, com o tempo, deixaram de ser apenas amigas e se tornaram irmãs. Dou aula para jovens que, em muitos momentos, olho com o mesmo cuidado com que se olha para uma filha. E ainda assim, — ou talvez justamente por isso —, escrever sobre a violência contra a mulher não é um gesto simples. Não é um exercício teórico. É uma travessia.
Porque o que está em jogo aqui não é apenas o que acontece quando alguém agride. É o que já estava acontecendo muito antes disso.
Os últimos acontecimentos que tenho acompanhado não me deixaram apenas indignado. Me deixaram desconfiado. Desconfiado da facilidade com que se aponta o ato final — o golpe, o disparo, o corpo no chão — como se ali estivesse o início da história. Não está. Nunca esteve.
A violência raramente começa onde ela se torna visível. Há algo anterior. Mais silencioso. Mais aceitável. Mais disseminado. Algo que circula sem escândalo, que se repete em tom de conselho, que se veste de cuidado, que se disfarça de ordem natural das coisas. Algo que ensina, pouco a pouco, quem deve conduzir e quem deve ser conduzido. Quem fala e quem se cala. Quem decide e quem se ajusta.
Há um tipo de linguagem que não parece violenta — e talvez por isso seja a mais perigosa. Uma linguagem que organiza o mundo em termos de hierarquia afetiva. Que chama controle de zelo. Que chama posse de amor. Que chama submissão de virtude. Que transforma desigualdade em destino e obediência em caráter. Não é o grito que inaugura a violência. É a frase que a torna plausível.
Em uma das mensagens recentemente divulgadas, um homem afirma tratar sua esposa como “todo macho alfa trata”, combinando “amor, carinho e atenção” com “autoridade de macho alfa provedor” diante de uma “fêmea beta obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser”. A frase não é um deslize. É um sistema inteiro condensado em poucas linhas. E é precisamente aí que o problema começa.
Porque não estamos diante de um excesso emocional. Estamos diante de uma gramática. Uma forma de organizar o real. Uma maneira de dizer o mundo que, ao mesmo tempo, o desenha. Como já se sabe — ainda que se finja não saber —, a linguagem não apenas descreve. Ela distribui lugares, autoriza gestos, delimita o que pode ou não ser feito. Ela não relata a hierarquia: ela a produz, a naturaliza, a protege.
É por isso que tratar esse tipo de discurso como “opinião” é, no mínimo, ingenuidade. E, no limite, cumplicidade. Não se trata aqui de caçar culpados em palavras isoladas, como se frases fossem responsáveis, por si só, por tragédias inteiras. Trata-se de algo mais sério: reconhecer que há formas de falar que preparam o mundo para certos acontecimentos. Que tornam determinadas ações pensáveis, justificáveis, quase inevitáveis dentro de uma lógica já previamente aceita.
O que me interessa, portanto, não é apenas a violência quando ela explode. É o terreno que a torna possível. Porque há algo profundamente perturbador em uma sociedade que se apressa em apagar incêndios, enquanto segue tratando como inofensivas as mãos que brincam com gasolina.
É sobre isso que este texto tenta pensar. Não sobre o ato isolado, mas sobre a estrutura que o antecede. Não sobre o escândalo do fim, mas sobre a banalidade do começo.
A violência não começa no ato
Há um equívoco confortável — e profundamente funcional — na forma como a violência contra a mulher costuma ser narrada. Ela aparece como ruptura, como um ponto fora da curva, como o momento em que algo “saiu do controle”. A história começa no excesso, no gesto extremo, no instante em que já não é mais possível negar o que aconteceu, e, ao fazer isso, preserva-se intacto tudo aquilo que veio antes, como se antes do golpe houvesse normalidade, como se antes do disparo houvesse equilíbrio, como se o que antecede a violência não tivesse qualquer relação com aquilo que a sucede.
Mas essa forma de contar não é neutra. Ela protege o problema. Porque ao localizar a violência no ato, desloca-se o olhar daquilo que a torna possível. E a violência, quase nunca, começa onde ela se torna visível. Ela começa muito antes, quando se aprende — lentamente, cotidianamente, sem escândalo — que o outro pode ser reduzido, ajustado, interpretado como alguém que ocupa um lugar e não como alguém que se apresenta como sujeito.
A violência não começa no corpo. Começa na forma como o corpo é lido. E esse aprendizado não acontece no extraordinário. Ele se infiltra no comum. Nas frases aparentemente inofensivas, nos conselhos bem-intencionados, nas ideias repetidas até se tornarem evidentes. É aí que se constrói uma percepção de mundo em que a desigualdade não parece violência, mas apenas “a forma como as coisas são”. Pierre Bourdieu, ao tratar da dominação masculina, mostrou com precisão esse mecanismo: a forma mais eficaz de poder não é a que se impõe pela força direta, mas a que se naturaliza a ponto de desaparecer como imposição e passar a operar como ordem do mundo.
É nesse ponto que a linguagem deixa de ser apenas expressão e passa a ser estrutura. O caso de Gisele Alves Santana não me marcou apenas pela brutalidade do desfecho, mas pela clareza quase incômoda com que expõe o que veio antes dele. O homem acusado de sua morte, um tenente-coronel da Polícia Militar, deixou registrado em mensagens um modo de compreender a relação que não pode ser tratado como detalhe periférico. Em uma delas, afirma tratá-la como “todo macho alfa trata sua esposa”, combinando “amor, carinho e atenção” com “autoridade de macho alfa provedor” diante de uma “fêmea beta obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser”.
Não é o crime que, aqui, deve ser o primeiro objeto de análise. É a linguagem. Porque nessa frase não há apenas uma opinião. Há uma arquitetura inteira de mundo. Há uma tentativa de fixar o lugar da mulher como posição subordinada, não como escolha, mas como dever. Não como possibilidade, mas como natureza. E quando algo é apresentado como “o que deve ser”, deixa de ser discutido e passa a ser exigido.
É exatamente aí que a desigualdade se torna estável. Rita Segato insiste que a violência contra a mulher não pode ser lida como um simples descontrole individual, mas como expressão de uma lógica de poder que organiza relações e distribui lugares. O que essa fala revela é justamente isso: antes de qualquer agressão, já havia uma gramática que autorizava a hierarquia, que justificava a assimetria, que preparava o terreno para que a relação não fosse vivida como encontro, mas como exercício de posição.
E é por isso que essas falas não são detalhe. Elas fazem algo muito específico: transformam a mulher de sujeito em função. De alguém com quem se relacionar em alguém que deve corresponder. De presença em papel. E papéis não dialogam. Papéis são desempenhados corretamente ou incorretamente.
Quando a mulher deixa de ocupar esse lugar — quando ela deixa de ser aquilo que “deveria ser” — o que se rompe não é apenas uma relação. É uma ordem previamente estabelecida. E, como mostra Kate Manne ao analisar a lógica da misoginia, o problema não é apenas o desprezo pela mulher, mas o mecanismo de punição que se ativa quando ela deixa de cumprir o papel que lhe foi atribuído.
O que aparece depois como violência, portanto, não é um ponto de partida. É um desdobramento. Talvez o erro mais persistente seja imaginar que a violência surge quando o controle falha. Mas, em muitos casos, o que se vê é o oposto: ela surge como último recurso de reafirmação de um controle que já vinha sendo construído muito antes, em linguagem, em expectativa, em silêncio.
Por isso, insistir em olhar apenas para o ato final é sempre chegar tarde. Porque quando a violência aparece, ela já foi ensinada.
A retórica que produz a submissão
Se a violência não começa no ato, então ela precisa começar em outro lugar. E esse lugar, quase sempre negligenciado, é a linguagem. Não a linguagem como instrumento neutro de comunicação, mas como forma de organizar o mundo. Como aquilo que define, antes de qualquer gesto, quem ocupa qual posição dentro da relação. Michel Foucault já havia indicado que o poder não se exerce apenas pela força, mas pela produção de verdade — e aquilo que se repete como evidente, como natural, como “o jeito certo de ser”, deixa de parecer imposição e passa a parecer realidade.
É exatamente isso que se vê na fala daquele homem. “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa.” A frase começa com uma universalização. Não é “eu penso assim”. É “todo homem”. O que está em jogo aqui não é uma opinião individual, mas a tentativa de inscrever essa visão como regra geral. Como norma. Como referência legítima. Esse movimento é decisivo.
Porque quando algo é apresentado como universal, ele se blinda contra questionamento. Ele se desloca do campo do debate para o campo da evidência. Não se discute o que “todo homem faz”. Apenas se reconhece — ou se desvia.
Na sequência, ele afirma: “com amor, carinho e atenção e autoridade de macho alfa provedor”. Aqui aparece o núcleo mais perigoso da construção. Não há oposição entre cuidado e domínio. Há fusão.
O amor não limita a autoridade. Ele a legitima. A autoridade não contradiz o afeto. Ela o organiza. O que se constrói é uma ideia profundamente distorcida de relação, em que controlar não é problema — é expressão de cuidado. Em que comandar não é abuso — é responsabilidade masculina.
É nesse ponto que a violência se torna invisível. Porque ela passa a operar sob o nome de virtude. A sequência da frase explicita aquilo que estava sendo preparado: “fêmea beta obediente e submissa”. Aqui a linguagem deixa de ser apenas hierárquica e passa a ser classificatória. Ele não está apenas dizendo como a mulher deve agir. Ele está dizendo o que ela é. E ao fazer isso, elimina a possibilidade de reciprocidade.
Porque quem é definido como “beta”, como subordinado por natureza, não é alguém com quem se negocia. É alguém que se enquadra. Que responde. Que se ajusta a um papel previamente estabelecido.
Judith Butler, ao tratar da performatividade, mostra como certos discursos não apenas descrevem identidades, mas as produzem e as regulam. Aqui, a fala funciona exatamente assim: ela não está relatando uma relação. Está tentando constituí-la. Está desenhando o que a mulher deve ser para que a relação funcione dentro de um esquema previamente dado.
E então vem a frase final: “como toda mulher casada deve ser”. Esse “deve” é o ponto de ruptura. Porque ele transforma uma preferência em obrigação. Uma visão em norma. Uma expectativa em exigência moral. A mulher não é apenas convidada a ocupar esse lugar. Ela é convocada a fazê-lo. E, mais do que isso, é medida a partir disso. A partir desse ponto, qualquer desvio deixa de ser diferença e passa a ser falha.
E é aqui que a análise de Kate Manne se torna decisiva: a misoginia não opera apenas como desprezo, mas como sistema de punição. Ela não age apenas contra mulheres. Ela age contra mulheres que não cumprem o papel que lhes foi atribuído. Que não obedecem. Que não se ajustam. Que não reconhecem a autoridade que lhes foi imposta como natural. O problema, portanto, não é apenas o conteúdo da fala. É o que ela faz.
Ela produz uma realidade em que a autoridade masculina se torna legítima, a submissão feminina passa a ser esperada, a reciprocidade deixa de ser necessária e qualquer forma de resistência é interpretada como erro. E uma vez que essa estrutura está instalada, a violência deixa de ser um absurdo e passa a ser uma possibilidade inscrita no próprio funcionamento da relação. Rita Segato é direta ao afirmar que a violência contra a mulher comunica algo — ela não é apenas destruição, mas mensagem. E a mensagem, nesses casos, é simples: reafirmar a hierarquia quando ela é ameaçada.
O que aquela fala revela, portanto, não é apenas uma visão de mundo equivocada. É uma lógica completa, coerente em seus próprios termos, que transforma desigualdade em ordem, domínio em cuidado e submissão em virtude.
E talvez seja exatamente isso que torna tudo mais perigoso. Porque não se trata de um discurso que parece violento. Trata-se de um discurso que parece correto.
O homem que aprende a dominar
Se a linguagem prepara o terreno e organiza a relação, resta uma pergunta que não pode ser evitada: quem aprende a falar assim?
Porque nenhum homem nasce dizendo “macho alfa”. Nenhum homem nasce entendendo amor como autoridade. Nenhum homem nasce confundindo cuidado com controle. Isso é aprendido. Repetido. Validado. Aplaudido, muitas vezes.
E aqui está um ponto que costuma ser evitado por conveniência: não se trata apenas do que se diz sobre a mulher, mas do que se ensina ao homem sobre si mesmo. Há uma formação silenciosa em curso.
Um aprendizado difuso, espalhado entre família, cultura, religião mal interpretada, redes sociais, grupos de pertencimento e discursos que oferecem respostas fáceis para frustrações complexas. Nesse aprendizado, o homem não é formado para o encontro. Ele é treinado para a posição. Para ocupar um lugar de comando. Para sustentar uma imagem de controle. Para não ceder. E, sobretudo, para não lidar com a própria limitação.
Bell Hooks, ao refletir sobre masculinidade e amor, insiste em algo que ainda soa desconfortável: muitos homens nunca foram ensinados a amar, apenas a desempenhar papéis que se parecem com amor, mas que, na verdade, são formas de domínio emocionalmente legitimadas. Eles aprendem a prover, a proteger, a decidir — mas não aprendem a escutar, a negociar, a reconhecer o outro como outro.
O resultado é previsível. Quando a relação exige reciprocidade, há dificuldade. Quando exige escuta, há resistência. Quando exige limite, há frustração. E frustração, para quem nunca aprendeu a lidar com ela, rapidamente se converte em ressentimento. É nesse ponto que certos discursos encontram terreno fértil.
Porque eles oferecem algo que é, ao mesmo tempo, sedutor e perigoso: uma explicação simples para o desconforto. Eles dizem ao homem que o problema não está na sua incapacidade de lidar com a alteridade, mas na mulher que “saiu do lugar”. Que “deixou de ser o que deveria ser”. Que “não respeita a hierarquia natural”.
O que se produz aqui é uma inversão. A dificuldade do homem em sustentar uma relação com um outro livre é reinterpretada como falha da mulher em se submeter. E, a partir daí, tudo se reorganiza. O incômodo vira injustiça. A frustração vira ofensa. A recusa vira desrespeito. E o que antes era apenas tensão passa a ser percebido como ameaça.
Pierre Bourdieu já indicava que a dominação não se sustenta apenas pela imposição, mas pela internalização de estruturas que fazem com que o dominador e o dominado reconheçam, ainda que de forma inconsciente, a lógica que organiza a relação. Aqui, o que se vê é um homem que não apenas exerce uma linguagem de domínio, mas acredita na sua legitimidade. Não se vê como agressor. Se vê como alguém que está ocupando corretamente o seu lugar. E isso torna tudo mais difícil.
Porque não há ruptura entre discurso e prática. Há coerência. A fala que define a mulher como submissa não é retórica vazia. Ela é projeto de relação. Ela é lente interpretativa. Ela é critério de avaliação do comportamento do outro. E, quando essa lente é frustrada, quando o mundo não responde à expectativa construída, a reação não aparece como excesso — aparece como correção. É nesse ponto que a violência deixa de ser percebida como violência. Ela passa a ser entendida como restauração de uma ordem.
Rita Segato é incisiva ao afirmar que, em muitos casos, a violência contra a mulher funciona como uma mensagem dirigida não apenas à vítima, mas ao próprio sistema de valores do agressor: uma forma de reafirmar seu lugar quando ele se sente ameaçado. Não se trata apenas de destruir o outro, mas de recuperar uma posição que parecia estar em risco. E aqui está talvez o ponto mais incômodo de todo esse processo. Não estamos lidando apenas com indivíduos violentos.
Estamos lidando com homens que foram formados — direta ou indiretamente — dentro de uma lógica que os impede de reconhecer o outro como sujeito pleno. Homens que aprenderam que amar é conduzir, que desejar é possuir, que perder é inaceitável.
E, quando o mundo insiste em não corresponder a esse modelo, a ruptura não é apenas externa. É interna. Mas, em vez de revisão, há reação. Em vez de autocrítica, há reafirmação. E, em alguns casos, essa reafirmação assume a forma mais extrema.
Por isso, reduzir tudo a um problema individual é insuficiente. Porque, se a violência começa antes do ato e se organiza na linguagem, ela também se sustenta em uma formação. E enquanto essa formação não for interrompida, corrigida, repensada, o cenário não muda — apenas se repete.
Entre o silêncio e a responsabilidade
Se a violência não começa no ato, se ela se organiza na linguagem e se sustenta na formação, então não há mais espaço para ingenuidade. O problema não está apenas nos extremos que nos chocam. Está no que toleramos antes deles.
Porque há uma ilusão confortável em acreditar que a violência é sempre o outro — o monstro, o descontrolado, o caso isolado. Essa narrativa nos protege. Ela cria distância. Permite indignação sem implicação. Mas ela não explica nada. E, pior, impede que se veja o que realmente importa.
O que está em jogo não é apenas o que alguns fazem. É o que muitos permitem. Enquanto determinadas formas de falar continuarem sendo tratadas como inofensivas, enquanto a linguagem que organiza a mulher como alguém que deve obedecer, ajustar-se, caber dentro de um papel continuar circulando sem resistência, o problema já está instalado. Não porque palavras sejam, por si só, violência, mas porque elas desenham o campo dentro do qual a violência deixa de parecer absurda.
Não existe neutralidade no discurso. Toda forma de dizer o mundo implica uma forma de organizá-lo. E toda forma de organizar o mundo distribui poder, delimita possibilidades, autoriza ou impede ações. Tratar isso como irrelevante é, no mínimo, descuido. No limite, é cumplicidade.
Se isso é verdade — e tudo indica que é — então a pergunta deixa de ser apenas “como punir a violência?” e passa a ser outra, mais difícil e menos confortável: como interromper o que a prepara? Não há resposta simples. Mas há caminhos que já não podem mais ser evitados.
O primeiro deles é assumir responsabilidade pela linguagem. Não no sentido superficial de vigiar palavras, mas de compreender que aquilo que se diz não é apenas expressão individual. É participação na construção de um mundo comum. Naturalizar hierarquias, romantizar submissão, tratar controle como cuidado não são apenas escolhas retóricas. São formas de legitimar estruturas que, mais adiante, podem se tornar concretas de maneira brutal.
O segundo caminho é enfrentar, com seriedade, a formação masculina. Não como slogan, não como discurso vazio, mas como tarefa concreta. Ensinar homens a lidar com frustração, a reconhecer limites, a sustentar relações que não giram em torno de si, a compreender que o outro não existe para corresponder a expectativas previamente construídas. Isso não é detalhe. Isso é fundamento. Porque, enquanto o homem não aprender a lidar com a recusa, qualquer relação continuará carregando, em potencial, a lógica da imposição.
O terceiro caminho é romper com a banalização. Parar de rir, de compartilhar, de relativizar discursos que, sob aparência de normalidade, carregam estruturas de dominação. Há uma diferença entre liberdade de expressão e irresponsabilidade discursiva. E essa diferença precisa ser levada a sério.
Nada disso é rápido. Nada disso produz resultado imediato. Mas qualquer mudança real começa exatamente onde o problema começa: antes do ato, antes do excesso, antes do ponto em que já não há mais retorno.
Porque há algo profundamente perturbador em uma sociedade que se mobiliza para reagir à violência depois que ela explode, mas continua indiferente ao modo como ela é preparada. Como se o incêndio fosse sempre surpresa, e não consequência.
Não faltam pessoas dispostas a apagar o fogo. Falta gente disposta a parar de brincar com gasolina. E talvez seja exatamente aí que a responsabilidade comece.

