A paz da cidade
uma introdução sobre o diálogo entre política e a vida em Cristo
Escrever sobre política sempre será um caminho perigoso, especialmente quando o texto aborda a relação entre aqueles que vivem em Cristo e a política. Este é um campo epidérmico, frequentemente inflamado por bandeiras e esperanças — quando não por ideologias, utopias e más intenções.
A política é a morada mais antiga do poder. E, quando se trata de poder, a casa onde ele reside será inevitavelmente afetada. O poder é o domesticador das virtudes, o desvirtuador dos discursos mais sinceros.
Por isso, deixo claro desde o início: quem escreve este texto não é alguém apaixonado pelo campo político, mas alguém que o observa como um fenômeno que precisa ser analisado racionalmente. Como acadêmico na área, aprendi que as pulsões políticas são inimigas das boas análises, e é com essa perspectiva que trato a temática.
Em outras palavras, este texto não discute política partidária nem é movido por qualquer orientação desse tipo. Meu objetivo é explorar o sentido mais originário e desafiador da atitude política: a convivência.
Conviver é o ato mais político que existe. A etimologia e o histórico da palavra nos apontam esse como seu sentido primeiro. Aristóteles, o proeminente aluno de Platão, nos ajuda a compreender isso.
Imagine-se vivendo em Atenas, na época do filósofo. Sua morada está inserida em uma cidade voltada para a polis. O sentido de coletividade permeia cada aspecto da vida. Suas habilidades, ofício e ações são vistos como partes orgânicas da vida na cidade.
Os cidadãos, aqueles que entendem que convivência não é estar ao lado circunstancialmente, mas partilhar uma vida comum, são chamados de politikos. O politikos vive a familiaridade da polis, consciente de que suas venturas e infortúnios estão intrinsecamente ligados aos de seus concidadãos. Ele participa de uma koinonia, uma comunhão pública.
Por outro lado, existe o idiótes. Este despreza a koinonia da cidade e se preocupa apenas com sua própria casa e destino. Aqui, “casa” deve ser entendida em um sentido amplo. Como convivência exige decisão, esforço e desafios, o idiótesprefere interagir apenas com aqueles que se alinham à sua visão de mundo e forma de vida.
Por escolha, o idiótes vive à margem, alheio aos esforços pela paz da cidade, ignorando suas problemáticas. Suas habilidades não servem ao bem comum; ele não possui uma vida integrada à cidade.
Curiosamente, há um paralelo interessante no livro de Jeremias. No capítulo 29, encontramos um contexto de aprendizado para a nossa comunidade. Roland Kenneth Harrison, renomado estudioso do Antigo Testamento, relata que Jeremias, em Jerusalém, soube que alguns falsos profetas exilados em Babilônia previam um colapso iminente do império. Isso alimentava a esperança de um rápido retorno à pátria.
Por conta dessa expectativa, os exilados escolheram viver à margem — o que, num primeiro momento, pode parecer compreensível. Afinal, Babilônia era temida não apenas por seu poder militar, mas por suas estratégias de aculturação. Basta lembrar como os nomes de Daniel e seus amigos foram transformados em louvores às divindades babilônicas.
Contudo, o Senhor interveio. Nos versos 5 e 6, Ele ordena que os exilados continuem a viver: construam, plantem, comam, casem, tenham filhos. Em outras palavras, suas vidas deveriam seguir. Babilônia não era exceção à ordem dada em Gênesis 1.15: “cultivar e guardar”.
Além disso, o Senhor lembra que Seu povo não deveria deixar de ser uma bênção (Gênesis 12.2) ou de guardar o lugar para onde foram enviados. “Procurem a paz da cidade para onde os deportei e orem por ela ao Senhor, porque na paz dela vocês terão paz.” (Jeremias 29.7, NAA)
Consegue juntar os pontos? Mesmo que nossos corações dancem em exultação pela esperança de ver o rosto do Redentor, não fomos chamados a viver à margem das cidades onde Ele nos colocou. Nosso chamado é “buscar” (דרשׂ) a paz da cidade — e não apenas orar por ela.
Esse termo, “buscar” (darash), envolve estudo, prática e dedicação. Está intrinsecamente ligado à noção de que temos uma vida comum com a cidade onde estamos. A nossa paz depende da dela. Essa busca também revela o perigo da mesquinhez e do egoísmo em nossas intenções cotidianas. Essas atitudes não são apenas antipolíticas (no sentido aqui discutido), mas antibíblicas.
Minha intenção não é ignorar que o texto lida com dois campos aparentemente distantes e, por vezes, conflitantes. Contudo, há uma certa convergência na questão levantada. Só somos cidadãos (politikos) quando estamos em comunhão com a cidade, engajados em suas problemáticas e utilizando nossas habilidades para o bem comum — não há atitude política maior do que essa.
Por outro lado, o livro de Jeremias nos recorda que, mesmo como cristãos exilados à espera de uma nova terra, somos chamados a cultivar e guardar o lugar onde fomos colocados. Ser uma bênção onde estamos, buscar a paz da cidade, como se fosse nossa própria. Ser cidadão do Reino, em muitos aspectos, significa também ser um melhor cidadão da sua cidade.

