A mesma frase
o que uma viúva, no velório, ainda sabia dizer sobre o marido
Há um instante, no velório, em que a sala perde toda a retórica. Não há mais nada a provar, nada a construir, nenhuma versão de si a defender diante de quem olha. O corpo ali, imóvel, já não responde por nada que se diga dele, nem para desmenti-lo, nem para confirmá-lo. É talvez o único momento da vida em que o humano se apresenta sem o aparato de sua própria encenação, porque quem deveria sustentar essa encenação já não está em condições de fazê-lo. O que resta, então, não é o morto. É o que os vivos dizem sobre ele.
Um senhor de noventa e dois anos. Sessenta e nove de casamento. Bodas que os dois celebraram ao longo da vida, como quem confirma, de tempos em tempos, um veredito que nunca cansa de precisar ser repetido. Ao lado do caixão, a esposa falava, não uma vez, mas várias, como quem repassa um rosário, sobre o marido que ela teve. Ele era um anjo. Ele a tratava bem. Nunca discutiram, no sentido de brigar de verdade. As frases voltavam sempre as mesmas, quase sem variação, como se ela já as tivesse dito tantas vezes ao longo da vida que agora, diante do corpo, elas simplesmente continuassem a sair sozinhas, sem precisar de invenção nenhuma.
À primeira vista, poderia parecer pobreza. Uma mulher que, depois de sessenta e nove anos ao lado do mesmo homem, só sabe repetir três ou quatro frases sobre ele: nada de episódios inéditos, nada de detalhe novo, nenhuma cena que ainda não tivesse sido contada antes. Poderia parecer, a um observador apressado, que a memória dela era rasa, ou que a vida dos dois fora pouco acontecida, pouco digna de narrativa. Mas é exatamente o contrário que está em jogo. A repetição não é sintoma de pobreza. É a prova mais alta de que aquilo foi, durante décadas, inteiramente verdadeiro, e o que é inteiramente verdadeiro não precisa se reinventar para continuar existindo.
A morte tem uma função quase cruel de simplificação: ela retira do morto a possibilidade de continuar se explicando. Enquanto vivo, um homem é, em parte, aquilo que diz de si mesmo: suas justificativas, seus argumentos, sua versão dos fatos quando os fatos são contestados. Morto, ele só é aquilo que os outros escolhem lembrar. A presença que resta não é mais a presença ativa de quem se apresenta; é uma presença inteiramente cedida ao testemunho alheio, sem direito de réplica. Há algo ali que se aproxima do que Louis Lavelle chamava de presença total: não a exibição de si, mas aquilo que subsiste quando toda exibição se retira, o resíduo que só aparece quando já não há mais ninguém ali para fingir ou para se corrigir. No velório, a presença do morto já não é performance. É o que sobrou depois que a performance acabou. E o que sobrou, no caso daquele senhor, foi inteiramente confiado à voz de sua mulher.
Essa é uma forma estranha e bonita de poder. Naquele momento, ela era a única autoridade sobre quem aquele homem tinha sido. A memória dela não valia por ser mais objetiva do que qualquer outra; valia por ser a mais antiga, a mais repetida, a única capaz de emprestar rosto a um rosto que já não podia falar por si. Emmanuel Levinas insistia que o rosto do outro é justamente aquilo que resiste a ser reduzido a categoria, a resumo, a definição fechada, que sempre excede o que dizemos dele. Diante de um corpo, porém, essa resistência muda de forma: o rosto que em vida escapava a qualquer totalização se entrega, na morte, à totalização inevitável de quem fica para contar. Foi por isso que aquelas frases repetidas pesaram tanto. Não eram lembranças soltas, escolhidas ao acaso entre tantas outras possíveis. Eram, naquele instante, a totalidade inteira de um homem. E essa totalidade cabia, sem sobra, nas mesmas três ou quatro frases que ela já dizia havia anos.
Aqui está o que talvez mereça mais demora: por que o amor, quando é longo e verdadeiro, tende a se guardar em fórmulas fixas em vez de se expandir em narrativas cada vez maiores? Seria de esperar o contrário: que sessenta e nove anos de convivência produzissem um estoque quase infinito de histórias, e que o luto liberasse esse estoque inteiro, uma enxurrada de episódios nunca contados. Não foi isso o que aconteceu. O que aconteceu foi a repetição de um punhado pequeno de frases, sempre as mesmas, ditas com a mesma cadência de quem não está inventando, só confirmando outra vez algo que já fora dito e redito centenas de vezes antes. Roland Barthes descrevia o discurso amoroso exatamente assim: uma linguagem feita de fragmentos que voltam sempre da mesma forma. A falta de criatividade não é o motivo. O motivo é que o amor, quando é real, não precisa de novidade para se sustentar. Ele precisa de repetição, de fórmula, de liturgia. Um casal que se ama de verdade não está sempre inventando elogios novos um para o outro; está, ano após ano, repetindo os mesmos, e é exatamente essa repetição, não a variação, que funciona como prova.
Há algo de litúrgico, no sentido mais estrito da palavra, nas bodas que aquele casal celebrou ao longo da vida. Uma liturgia não muda de texto a cada celebração; ela repete, de propósito, as mesmas palavras, porque é a repetição que a torna sagrada, e não a novidade. As bodas eram, provavelmente, uma das ocasiões em que aquelas frases (ele é um anjo, nunca brigamos, ele sempre me tratou bem) voltavam a ser ditas em voz alta, como quem renova um voto sem precisar reescrevê-lo. O velório não inventou essa liturgia. Ele apenas a repetiu uma última vez, na única ocasião em que ela deixaria de ser promessa renovável e passaria a ser, dali em diante, tudo o que restava.
É aí que a pobreza aparente dessas frases se revela abundância. Só se repete, ano após ano, aquilo que não se esgota. Uma frase que precisasse ser trocada por outra a cada aniversário estaria confessando, sem querer, que a anterior já não bastava, que alguma coisa nela tinha rachado. As mesmas três ou quatro frases repetidas por décadas dizem o oposto: que nada ali precisou de correção, que o vocabulário do amor deles foi montado cedo e nunca precisou de reforma. Há relações que se contam através de uma sucessão infinita de histórias novas justamente porque cada história nova é uma tentativa de compensar alguma coisa que a anterior não resolveu. E há relações (mais raras, e talvez por isso mais difíceis de notar num primeiro momento) que se contam sempre pela mesma frase, porque essa frase, desde o início, já dava conta de tudo.
Talvez seja por isso que a cena do velório impressiona tanto quem a testemunha de fora. Não é o conteúdo das frases que emociona: elas são, isoladamente, quase banais, do tipo que qualquer casal razoavelmente feliz poderia dizer um do outro. O que emociona é a duração por trás delas, o fato de que a mesma frase, dita pela primeira vez talvez ainda jovem, continuasse inteiramente válida sessenta e nove anos depois, sem precisar de emenda, sem precisar de ressalva, sem que a vida tivesse, em momento algum ao longo de sete décadas, obrigado aquela mulher a trocar de vocabulário para continuar sendo sincera. Isso não é pouco. É, talvez, a coisa mais rara que um casamento pode oferecer: que a frase que se diz sobre o outro no primeiro ano de vida a dois ainda sirva, sem alteração, no último.
Não há, ao final, uma conclusão que se imponha, e talvez seja errado querer impor uma. O que fica, ao sair daquele velório, não chega a ser uma tese sobre o amor em geral. É, isso sim, uma espécie de espanto concreto e miúdo: que exista, de fato, gente capaz de manter viva, por tanto tempo, a mesma frase. E que essa mesma frase, agora que o homem que ela descrevia já não está mais ali para confirmá-la ou desmenti-la, continue sendo, sozinha, tudo o que dele restou. Não uma biografia. Não um resumo de feitos. Só a frase, repetida mais uma vez, agora para sempre, pequena, exata, e inteira o bastante para conter um homem inteiro.

