A desventura de Hermes
sobre a incapacidade interpretativa
Hermes é uma das divindades mais antigas da mitologia grega. Na literatura grega, suas funções mais comuns incluem ser o mensageiro dos deuses e o deus das habilidades da linguagem, do discurso eloquente e persuasivo, e da prudência.
Uma de suas principais atribuições, a de mensageiro, exigia precisão na compreensão, interpretação e comunicação das mensagens que transmitia. Seu nome tornou-se a raiz do que hoje chamamos de hermenêutica: o exercício de compreensão e interpretação (como definido por Gadamer) da linguagem. A palavra hermenêutica deriva de uma transliteração modificada do verbo grego hermeneuein, que significa expressar em voz alta, explicar, interpretar ou traduzir.
Lembro-me do impacto que tive ao entrar em contato com a obra do filósofo empirista e hermenêutico alemão Wilhelm Dilthey. Impressionou-me sua ideia de que a postura hermenêutica é fruto da maturidade e da sensibilidade da mente — quase como uma capacidade espiritual (no sentido filosófico) de compreensão e discernimento.
Infelizmente, se o deus Hermes pudesse observar os nossos dias, certamente lamentaria a desventura de seu ofício. Compreender e interpretar algo — mesmo que seja uma simples frase ou premissa — parece cada vez mais raro. O mais irônico é que esse fenômeno ocorre numa geração que se considera mais informada do que todas as anteriores.
Wittgenstein situou os problemas da filosofia como advindos do enfeitiçamento da linguagem. Indo um pouco além, creio que a questão é ainda mais cotidiana. Os nossos embates deixam claro que a hermenêutica é uma capacidade indispensável para a vida.
Ela não se limita aos debates acadêmicos, mas é essencial para o êxito (ou fracasso) dos diálogos mais corriqueiros. A hermenêutica pode construir uma comunicação compreensível para todas as partes ou, em sua ausência, tornar inviável qualquer entendimento.
Seu domínio, assim como o da língua e da linguagem, é o caminho para compreendermos o que — e quem — nos cerca. Por outro lado, sua ausência é o indicativo de uma constante desventura: a de não compreender, de não interpretar e, pior, de ser refém do autoengano.

